A dança dos treinadores

A chamada chicotada psicológica não é um exclusivo do futebol masculino. Também no feminino, os treinadores mudam com alguma frequência durante a época. Na Liga BPI são 9 as mudanças já efetuadas até agora. As razões para tais acontecimentos, têm normalmente como base os maus resultados.

E nestes 9 casos, será essa a razão? A falta de pontos, poderá justificar o despedimento dos treinadores?

Obviamente que não deveria ser só por essa razão, mas quando tem que se alterar algo, o treinador é, por norma, o elo mais fraco. Como é fácil de perceber, é mais prático o treinador sair, do que saírem jogadoras ou direções.

Muitas poderão ser as razões que fundamentem este tipo de solução:

– falta de competência do treinador;

– défice na elaboração/preparação do plantel para a época;

– definição de objetivos irrealistas face ao campeonato que vai disputar por parte da direção e com concordância da equipa técnica;

– falta de condições de trabalho (espaço disponível para treinos / horários dos treinos / ausência de departamentos no clube-médico, etc.);

– pouca qualidade nos recursos humanos para os objetivos definidos;

– pouco conhecimento do treinador em relação ao campeonato que vai disputar;

– falta de pontos/resultados – mesmo que o treinador tenha competência e capacidade para a função, os resultados não aparecem;

– vínculo laboral precário do treinador.

Luís Andrade começou a época no Benfica, mas entretanto saiu. (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Há treinadores que são despedidos por outros interesses, alguns desses, muitas vezes pouco claros. Nesses casos não nos vamos alongar. Contudo, uma das questões importantes que vamos abordar é a do vínculo do treinador ao clube. Em alguns casos, o compromisso não é suficientemente forte para manter o treinador até ao final do contrato. São geralmente de uma época, em que desde início, o treinador é pressionado para conseguir resultados quase imediatos. Esta fragilidade de um contrato amador, leva a que, em algum momento mais delicado, a rescisão de funções seja uma solução simples. Nestes casos, o treinador sai e não há direito a qualquer pagamento por parte do clube. Logo, o clube vê nesse ativo um bem descartável. Num contrato profissional, as situações são bem diferentes. Por consequência, o despedimento já envolve uma indemnização. Este facto, poderá ser importante e motivo de maior ponderação por parte da direção, aquando da tomada de decisões, seja da contratação ou do despedimento.

Renato Fernandes foi substituído por João Gonçalves no comando técnico do Ouriense. (Foto: Filipe Amorim/Lado F)

Em relação ao despedimento de treinadores no futebol feminino português por falta de pontos/resultados, será apenas uma questão nacional?

Com base em alguns dos principais campeonatos europeus de futebol feminino – Espanha, França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Holanda e Dinamarca, eis os resultados apurados:

Época 2020-2021
PaísEquipasTrocas de treinadoresPercentagem
França12325%
Inglaterra12216.7%
Itália12216.7%
Alemanha1200%
Holanda800%
Dinamarca8337.5%
Espanha18633.3%
Portugal20945%

Num universo de 102 treinadores, 25 deixaram o clube antes do final da época/contrato. Aparentemente, comprova-se o que é a norma, uma vez que a maioria das substituições de treinadores, ocorreram em equipas do fim da tabela, com poucos pontos e onde o treinador é quase sempre despedido devido a resultados menos favoráveis. Em comparação com os outros países, Portugal tem 9 saídas de treinadores, num universo de 20 equipas. De acordo com os dados, é em Portugal que a frequência de despedimentos de treinadores é maior.

Um critério mais exigente por parte dos clubes na escolha do treinador, poderá ser fundamental no caminho para o êxito, assim como a apresentação de um projeto credível, devidamente elaborado, sustentável, sólido e que seja uma verdadeira aposta no futebol feminino. Desta forma, poderão evitar-se posteriores tomadas de decisão, baseadas apenas na saída do treinador.

Pedro Sampaio

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