“A medalha vem provar que não vale a pena desistir quando as coisas não correm muito bem”

Canoísta Francisca Laia falhou o apuramento olímpico, mas foi vice-campeã mundial na prova mista

Praticou muitos desportos, mas foi o exemplo do pai, que enveredou pela canoagem aos 10 anos, que contribuiu para a escolha. Recebeu ensinamentos e Francisca Laia ficou na modalidade. A medalha de prata conquistada em K2 200 metros nos Mundiais de Copenhaga, em setembro, foi sinónimo de recompensa para a canoísta que não desistiu, depois de falhar o apuramento para Tóquio’2020. Foi com Messias Baptista (prova mista) que Francisca voltou aos pódios, um sentimento especial como conta a canoísta de Abrantes ao Lado F.

Que significado teve esta medalha, pouco tempo depois dos Jogos Olímpicos, em que não esteve presente?

Foi uma decisão que tive de tomar, depois de falhar duas oportunidades para o apuramento olímpico. Animicamente, as coisas não foram muito fáceis, mas decidi continuar a treinar mais três meses. Acho que não fazia sentido parar e tinha medo de perder completamente a motivação e não voltar na próxima época. Sem qualquer objetivo, continuei a treinar, com pouca vontade, mas depois as coisas surgiram e participei em k2 mistos e k2 200 e k2 500, sem expetativas de medalhas, porque sei qual o meu nível atual. Porém, em k2 mistos sabia que estávamos bem, mas até à prova não temos noção de como estão os nossos adversários e a medalha foi a prova de que quando por vezes as coisas não correm muito bem, não vale a pena desistir. Foi o resultado que precisava para me motivar ainda mais para o próximo ciclo olímpico. A época não foi boa, mas terminou bem.

Como é o treino para uma prova mista? Tem experiência nesta vertente?

Fui campeã do mundo universitária e embora não estejamos muito habituados, tem surgido cada vez mais. Já tinha feito 500 metros numa Taça do Mundo e agora foi 200 metros. Todas as pessoas ao nosso lado tinham medalhas olímpicas, em Europeus ou mundiais. Foi uma prova concorrida e as diferenças tão pequenas que dá um sabor ainda mais especial. Em termos de treino, tenho de remar num barco de volume acima do que tou habituada, por causa do peso do Messias. Os tamanhos dos barcos são definidos pelo nosso peso corporal, eu peso 60 kg e remo num barco com menor volume, em comparação com o Messias que pesa 90. É tentar ajustar o barco a mim, a parte técnica ajustada e treino passa pelo mesmo de qualquer outra tripulação na canoagem. Sempre nos demos bem e foi fantástico. Quando nos sentamos numa embarcação e pensamos ‘isto vai bem, vou confortável como se fosse a remar de k1’ e há outras em que não nos sentimos confortáveis. E eu e o Messias sempre fomos bastante bem e é meio caminho andado para tudo correr bem.

Francisca Laia com Messias Baptista (Foto: FP Canoagem)

Já falou no período em que não conseguiu o apuramento para os Jogos. Pensou em desistir?

Não, porque tinha metido na cabeça tentar mais um ciclo olímpico, mas pensei fazer uma pausa grande. A melhor opção foi não parar e estes meses de treino foram muito bons para eu me descobrir, principalmente em termos psicológicos, porque sinto que passei por todos os momentos maus pelos quais poderia passar. Depois houve a natural subida… ia terminar a época feliz, com ou sem medalha, mas assim foi melhor ainda e foi um Mundial em que consegui as primeiras finais em campeonatos do mudo absolutos e ter a primeira medalha é muito especial.

O que se segue agora? O que tem planificado?

Agora haverá eleições na federação e aguardamos, porque depende do treinador e federação. O k1 200 que eu fazia deixou de ser olímpica e o meu objetivo é integrar uma tripulação seja k2 ou k4 para tentar o apuramento para Paris’2024. Individualmente, o objetivo é melhorar nos 500 metros, uma distância em que ainda tenho que fazer bastante trabalho.

Está na canoagem desde muita pequena. O que custa mais?

São os dias de inverno em que tenho de treinar a chover e não apetece ir para dentro de água, é o sacrifício maior, mas faz parte e é relativo. Para mim, os sacrifícios são escolhas, de querer estar lá ou não e para mim é isso. Os sacrifícios já lá vão quando estudava [risos].

E conseguia conciliar tudo…

Sim, era mais difícil, porque a vida social era mais ativa, com a escola e o estudar e o descanso ficava para trás.

Para entrar em Medicina, foi ótima aluna…

Não me safava mal no Secundário e entrei na faculdade com estatuto de alta competição. Sempre tive queda para estudar e saber não ocupa lugar.

Gosta do trabalho de ginásio?

Aprendi a gostar de fazer ginásio. Antes não gostava, mas com o passar dos anos, comecei a gostar mais e foi das partes essenciais do meu treino, quando melhorei o meu treino de ginásio nos últimos três anos.

Faz quantas sessões?

Três a quatro por semana, muito raramente cinco, com duração de uma hora/hora e meia por sessão.

Representava o Sporting, como encarou o fim da modalidade no clube?

Foi uma situação super desagradável. Não nos dá estabilidade ficar sem clube e foi inesperado, mas tive a oportunidade de voltar a Abrantes [representa o CD ‘Os Patos’] e retribuir com a medalha. Foi uma conquista por Abrantes e voltei à cidade e ao clube onde me formei. É sempre especial voltar e sinto-me acolhida.

Qual o momento mais alto da sua carreira?

O mais saboroso foi o apuramento para os Jogos, mas umas hora depois, porque ao início só chorava. E fica essa participação no Rio de Janeiro. E a conquista da primeira medalha foi um ponto viragem, em tudo. Foi em 2011 no Europeu de juniores em k1 200 metros.

A longo prazo, que planos faz?

Não vale a pena, o desporto é volátil. A minha vida profissional e pessoal há-de começar a ter peso nisso. 2024 é uma certeza, depois vamos ver.

E a Medicina?

Em janeiro, vou começar a fazer o ano comum e voltar a conciliar ambas as partes. Quero ficar na Figueira da Foz, dada a proximidade com Montemor o Velho [local do centro de alto rendimento]. Terminei o curso em 2018, fiz uma pós- graduação em Medicina Desportiva e depois parei para treinar para este momento. Não saiu de acordo com o planeado, mas não me arrependo. O meu lema de vida é chegar aos 80 anos e ao olhar para trás e não dizer e se? Tomei a decisão certa.

Sendo médica, como lidou com a covid?

Ao início foi muito difícil lidar com a incerteza e saber se havia Jogos. Quando foram adiados, organizei-me. O que custa é não saber para onde vou. Claro que custou, mudámos rotinas, arranjar outras forma de fazer coisas e reinventar-nos, mas foi uma aprendizagem. Nenhum de nós é a mesma pessoa que era há ano e meio. Todos mudámos um bocadinho e encaro como crescimento. A vida tem pedras necessárias para nos fazer evoluir.

Como análise o trabalho da Ciência?

Houve a fase de pânico normal, por estarmos a lidar com o desconhecido e as coisas correram bem. Quer dizer, dito assim… Morreram milhares de pessoas, mas já houve outras pandemias. Há cerca de 100 anos, a gripe espanhola matou 100 milhões de pessoas. O facto de a ciência estar tão mais evoluída nesta altura permitiu que houvesse menos mortes e conseguíssemos uma solução muito mais rápida, com a vacina. O caminho passa por nos habituarmos. Vamos fazer parte da história daqui a uns anos. Há que continuar a ter cuidado e a vacinação é muito importante, mas estamos caminho certo.

Como mulher, quais as principais dificuldades sentidas no desporto?

Hoje em dia, as coisas estão mais esbatidas, mas há estereótipo de a mulher ser encarada como mais frágil. Olham sempre para a mulher desportista com uma imagem de fragilidade e de que não somos rijas, mas cabe-nos também mudar essa imagem, pois somos capazes de chegar onde ambicionamos, como os homens.

Como olha para um atleta como Fernando Pimenta?

Sem dúvida é excecional e até agora trouxe os melhores resultados da canoagem para Portugal e espero que ainda o faça durante muitos mais anos. É engraçado ver a longevidade destes atletas, para vermos onde os mais novos podem chegar. Ele e a geração de Londres’2012 foram responsáveis pelo aumento de visibilidade da canoagem. Se ele consegue, também temos de ter ambição de lá chegar e é bom partilhar com ele momentos do dia dia em estágios.

Fora da canoagem, quais os seus hóbis?

Gosto de ler, adoro viajar, combinar um café, ver filmes, séries…

Gosta de cozinhar? Tem alguma especialidade?

Carbonara sem natas, ao estilo italiano, a verdadeira.

E doces?

Durante o confinamento, aventurei-me e fiz quindim de coco, adoro coco! Aventurei-me na culinária e acho que vou continuar a investir, talvez se torne um hóbi mais a sério.

Tem os anéis olímpicos tatuados no antebraço. Que significado tem a tatuagem?

Em 2012, disse ao meu pai que se fosse aos Jogos iria fazer. Não tenho apreço especial por tatuagens, mas queria que os Jogos ficassem marcados em mim para sempre. O meu pai era contra, mas fiz e aceitou. Até acho que agora tem orgulho.

Fotos: Nuno Caetano Pais

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