“A medicina é hoje uma corrida contra o tempo e mesmo dando tudo, já não conseguimos salvar todos”

Distribuidora do AVC Famalicão, Vanessa Rodrigues é médica e analisa o "drama" do atual momento pandémico, com apelos à população

Capitã da equipa de voleibol feminino do AVC Famalicão, Vanessa Rodrigues é médica especialista em Saúde Pública e Autoridade de Saúde em dois concelhos do distrito do Porto. Lida com casos positivos à Covid-19 e familiares à distância de um telefonema, por plataformas digitais. Vanessa lida com as incertezas, receios, medos, angústias em cada partilha e ao Lado F, explica que o trabalho não é só a Covid-19. “Existem ao mesmo tempo outras tarefas que precisam de continuar a ser feitas em prol da saúde da população”.

Como tem lidado com o momento que o país atravessa?
É muito triste… Psicologicamente e emocionalmente sinto-me extremamente desgastada. Não pelo volume de trabalho, que são muitas horas mas, mais até por ver que mesmo com tanta desgraça a acontecer no nosso País, há pessoas que não cumprem as regras, não seguem os conselhos. Esta doença não é brincadeira, não avisa quem vai agravar o quadro clínico subitamente e quem vai ficar bem.

Quantas horas tem trabalhado por dia?

Eu estou a trabalhar no mínimo 12 horas por dia desde o final de fevereiro de 2020. Podemos falar em burnout dos médicos de saúde pública, dos profissionais de saúde em geral, decididamente que sim, mas é muito difícil nós assumirmos isso para nós próprios. Nós, eu, não vamos parar, a nossa vocação e missão é ajudar o outro, ajudar/salvar vidas direta ou indiretamente. Para continuar a minha missão tento cuidar de mim, mantenho-me ativa, cumpro os planos de condição física do clube, tento alimentar-me a horas decentes e bem e obrigo-me a manter os níveis de hidratação e um mínimo de horas de sono.

“Estou a trabalhar no mínimo 12 horas por dia desde o final de fevereiro de 2020. Podemos falar em burnout dos médicos de saúde pública, dos profissionais de saúde em geral”



Como é que um médico olha para as filas de ambulâncias em espera à porta de hospitais?
Se ambulâncias foram encaminhadas para o hospital é porque pela triagem prévia eram necessários cuidados hospitalares, ou seja cada minuto que passa o quadro clínico dos doentes que estão em ambulância degrada-se. É importante lembrar que aquelas filas de ambulâncias não são apenas ambulâncias Covid-19, podem ser ambulâncias com pessoas que sofreram por exemplo um acidente, um enfarte, um AVC… As mortes no geral estão a aumentar, não só as mortes por Covid-19. Estão a morrer portugueses também com outras patologias. As pessoas devem ter a consciência e a responsabilidade de que em situações não emergentes, previamente ligarem para a linha SNS24 e seguir as orientações. Em caso de emergência ligar para o 112. Não atrasem e negligenciem a vossa saúde, mas procurem ajuda nos canais certos.

Vanessa Rodrigues foi capitã da Seleção Nacional

De que forma se gere a situação de doentes covid e não covid?

A gestão Covid e não Covid foi a possível, as infraestruturas hospitalares estavam preparadas, a questão é que não há profissionais de saúde suficientes. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) sofre há muito tempo com falta de profissionais e em situação pandémica isso acentua-se. Há profissionais que fazem em três dias as horas de trabalho de uma semana!
Mas, na minha opinião, é o comportamento dos portugueses que tem de mudar. Se em março/abril foram a nossa maior ajuda, porque realmente restringiram os seus contactos, ficaram em casa, aplaudiram-nos… Agora parece que não querem saber. Imaginem se os profissionais de saúde não quisessem saber do seu doente, que pode ser familiar de qualquer um de nós… Falta empatia na nossa sociedade! A Medicina nos tempos atuais é uma corrida contra o tempo onde já não conseguimos salvar todos, mesmo dando tudo e o melhor de nós.

“Há profissionais que fazem em três dias as horas de trabalho de uma semana! É o comportamento dos portugueses que tem de mudar. Se em março/abril foram a nossa maior ajuda, porque realmente restringiram os seus contactos, ficaram em casa, aplaudiram-nos… Agora parece que não querem saber”


Em termos de treino, como tem sido essa gestão? Acha que deveria haver uma suspensão, provisória das provas? Existe receio da vossa parte?

No início da época foi mais difícil ter tempo, não me estava a permitir ‘ter esse direito’. No entanto, compreendi que ir treinar não era um capricho, mas sim algo necessário para a minha saúde mental. O Desporto só faz bem, todos sabemos e reconhecemos, mas nesta fase acarreta alguns riscos e como tal, deve ser acompanhado do cumprimento devido das regras e normas. O desporto devia dar mais e melhor exemplo em muitas situações. Muitos outros sectores da sociedade fizeram esforços imensos para cumprir as normas e mesmo assim foram suspensos forçosamente por ordem governamental. As federações de múltiplas modalidades desportivas mantêm em atividade as principais divisões/ligas. A meu ver, nada muda, ser atleta de primeira divisão/liga, não é sinónimo de ser imune. O receio existe seja no voleibol, seja no ginásio, seja na escola, seja no teatro. O receio existe porque o risco de contágio também existe. Face à gravidade da situação epidemiológica em que vivemos no nosso país não me surpreenderia se optassem pela suspensão temporária dos eventos desportivos durante 2/3 semanas. Lutar e vencer o vírus está acima de qualquer resultado competitivo!!

“Face à gravidade da situação epidemiológica em que vivemos no nosso país não me surpreenderia se optassem pela suspensão temporária dos eventos desportivos durante 2/3 semanas. Lutar e vencer o vírus está acima de qualquer resultado competitivo!”


Que apelo deixa à população?
Peço ‘apenas’ que nos ajudem, ficando em casa. Não mantenham contactos físicos que não sejam estritamente necessários, tenham cuidado na partilha de objetos, lavem ou desinfetem frequentemente as mãos e não mexam na máscara (que deve tapar sempre o nariz e a boca). Neste momento é preferível exagerar nesses cuidados. Nós, profissionais de saúde, não conseguimos fazer mais ou melhor… O limite já foi ultrapassado há muito e infelizmente em breve vamos perder cada vez mais profissionais por esgotamento/depressão/burn out. Fiquem em casa. Pela saúde física e emocional de todos os profissionais. Pela vossa saúde. Pela saúde da vossa família. Pelo SNS. Por todas as vítimas que a pandemia já originou.

Foto: AVC Famalicão

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