“A mulher não pode ter sentimentos, se quer trabalhar no futebol masculino”

Mariana Alves é a diretora de comunicação do Ac. Viseu, da Liga Portugal 2 SABSEG. Tirou o curso de árbitra antes de integrar a estrutura de um clube do futebol profissional e tem uma visão abrangente do preconceito e suspeita que ainda existe em Portugal

Olhar para Mariana Alves é olhar para uma determinação férrea que a levou a chegar longe em poucos anos num percurso marcado pela comunicação. Começou na região de Aveiro, de onde é natural, conduziu-a até Lisboa e acabou por levá-la a Viseu, onde assume a função de diretora de comunicação no Académico de Viseu, na Liga 2 Portugal SABSEG, o segundo escalão do futebol português. Não é a única mulher com estas funções, mas ao longo do trajeto, a jovem foi sentido os olhares reprovadores de quem ainda estranha alguém do sexo feminino num mundo de homens.

Mas Mariana segue indiferente: enveredou primeiro pela arbitragem, atividade que muito elogia e sobre a qual tem uma perspetiva pedagógica. Ao Lado F, a jovem e lutadora Mariana ‘abriu o jogo’ e deu a conhecer as suas vitórias, mas também as mágoas por ainda hoje sentir uma injusta diferença.


Mariana está no clube desde julho de 2019, depois de passar pelo Gafanha, onde foi também delegada ao jogo, pasta que mantém no Académico. “Quando começou a pré-época, não havia ninguém como diretor desportivo e então assumi a pasta de tratar das inscrições. O Ramiro [Sobral, diretor-geral do Ac. Viseu] fazia as contratações e eu o mais fácil, que é tratar das inscrições e rever os jogadores na plataforma. Se errar uma inscrição e se puser um jogador mal inscrito vale três pontos, uma derrota por 3-0. Está no regulamento e todos os jogadores têm de estar bem inscritos na plataforma, é tudo uma gestão entre seguros, acabar de arranjar casas e alojamentos para os jogadores quando não havia cá o diretor desportivo. O Académico tem uma estrutura pequena, somos seis e ajudamo-nos todos. Eu não sou só diretora de comunicação. O Diogo, que está comigo na comunicação este ano, não é só da comunicação, o diretor desportivo não é só diretor desportivo, a diretora financeira não é só diretora financeira… acabamos a fazer todos um pouco mais que as nossas funções para que o clube vá para a frente”, diz.

Acumula várias funções, mas oficialmente responde como diretora de comunicação. Havendo outros postos no futebol masculino habitualmente mais ocupados por mulheres – como a fisioterapia, por é um exemplo –, a sua função será a mais democrática de todas em Portugal?

Democrática… em relação a homem e mulher, ainda não é tão democrático como deveria ser. Felizmente, é já um pouco, na medida em que a mulher consegue entrar mais rápido, em que é escolhida pela sua eficiência e não pelo seu género, se é homem ou mulher não interessa. No ano passado, a Liga Portugal perguntou em que é que era bom ter uma mulher no futebol e eu disse que esse não era o lado certo das coisas, o lado certo é o profissionalismo, a qualidade, o talento da pessoa, independentemente de ser homem ou mulher.

Este deve ser o pensamento no futebol. Se estás cá é porque tens talento, tens criatividade e és profissional. Não é fácil para a mulher. Infelizmente, ainda não é o ideal, espero que um dia sejamos vistas pelo nosso profissionalismo e não pelo nosso género, porque ainda há espaços um pouco fechados. Há uma desconfiança, há o diz-que-disse…

Há um ‘pé atrás’ das pessoas quando percebem que é uma mulher que está no cargo… Ainda existe muito isso no futebol masculino. Felizmente, o Mundo está a começar a mudar, mas ainda existe alguma desconfiança por parte de algumas pessoas no futebol profissional. Apesar de achar que não é só o diretor de comunicação que deve ser democrático.

“Espero que um dia sejamos vistas pelo nosso profissionalismo e não pelo nosso género, porque ainda há espaços um pouco fechados. Há uma desconfiança, há o diz-que-disse…”



Deveriam ser todas as funções num clube de futebol…

Não vejo o problema por uma mulher ser fisioterapeuta, ou administradora da SAD. Tantas funções, desde a rouparia… Aqui no Académico somos 50% mulheres, 50% homens. Aqui no Académico as coisas estão bem encarreiradas e existe uma igualdade de género de trabalho. O profissionalismo é o que está à frente, ninguém está aqui a dizer se és mulher ou homem e eu gostava que se encontrasse isso em mais clubes e não houvesse desconfiança, porque nós não vamos colocar o lado pessoal à frente do profissional.

Quando temos uma mulher a entrar no futebol é porque é apaixonada pelo futebol. Só assim consegue trabalhar no mundo do futebol, porque infelizmente ainda não é fácil. O caminho que uma mulher percorre é ser olhada de lado, pela desconfiança de haver envolvência pessoal entre ela e uma pessoa qualquer do clube.

“O caminho que uma mulher percorre é ser olhada de lado, pela desconfiança de haver envolvência pessoal entre ela e uma pessoa qualquer do clube”


Mas o envolvimento pessoal pode existir em qualquer área para além do futebol, não lhe parece?

Também pode, mas no futebol masculino ainda estamos a mudar mentalidades. No feminino, já há a mentalidade mudada, porque era impensável há uns anos, uma mulher dar um chuto numa bola e, felizmente, o futebol feminino em Portugal está a crescer: graças a Deus temos uma campeã europeia, a Jéssica Silva. Temos de sentir orgulho disso.

Não é pensar: “Uma mulher no futebol masculino, não…” Nós, mulheres – e homens também –, temos de ser simplesmente avaliados pelo nosso profissionalismo, e o caráter, claro. Tem de ter-se caráter para estar cá, se não se tem, aí é que se vai tudo pelo esgoto abaixo, sinceramente. Pode acontecer apaixonares-te… ninguém te pode atirar à cara se isso te acontecer. Infelizmente, atiram e, infelizmente, a mulher tem de pensar ‘tenho de colocar os sentimentos de parte e ser só profissional, se quero continuar no futebol e só no momento em que isto crescer e quando as pessoas mudarem a mentalidade, posso pensar numa junção’. Neste momento, a mulher não pode ter sentimentos, se quer trabalhar no futebol masculino. Essa é talvez a maior desigualdade que ainda existe entre o futebol feminino e o masculino, por exemplo.

Pode ser mais precisa?

Há imensos treinadores que acabam por gostar de uma jogadora e isso não é problema, mas é problema se isso acontecer no futebol masculino – alguém do plantel, treinador ou fisioterapeuta acabar por se apaixonar por alguém da estrutura do clube ainda é um problema. Acho que é ainda o único lamento entre nós, mulheres, e os homens, é a falta de confiança, acharem que a mulher só lá está para uma coisa. Não: nós não estamos no futebol só para uma coisa, não estamos no futebol para nos casarmos com um jogador de futebol, esse não é o nosso pensamento.

Quem me dera a mim casar só com o futebol (sorriu). Estava bem – sou extremamente apaixonada por aquilo que faço e pelo futebol e as pessoas deviam ver-me assim: ela é apaixonada pelo futebol, a Mariana não é apaixonada pelo jogador de futebol, são duas coisas completamente diferentes e as pessoas misturam. Quando uma mulher entra num clube de futebol, é sempre posta de lado, olhada de lado. Há sempre essas desconfianças, infelizmente, eu passei por algumas, por alguns ‘diz-que-disse’ – todas as mulheres que andam no futebol, tal como eu, sabem que isso acontece.

O que é que a gente faz? Embrulha, mete num saco, chuta para canto e continua o caminho. Se nos vamos deixar agredir por tudo aquilo que dizem ou pensam de nós, nunca vamos lá chegar onde queremos. Passei pelo Anadia, pelo Gafanha e lá tenho a experiência de ‘ir à China’: os contos e ditos durante sempre foram muitos porque estava a trabalhar em casa – quando os jogadores faziam os jantares de equipa com a direção, eu também ia com eles beber um copo, porque é normal, somos jovens, podemos ir beber um copo a algum lado.

No dia a seguir nunca havia jogo, os jantares eram sempre depois dos jogos e a Mariana andava sempre com eles e foi um processo complicado de gerir até que chega a julho de 2019 e numa Liga profissional, chego cá e encontro um clube completamente diferente, um grupo completamente aberto em confiança, que estava disposto a trabalhar e a fazer crescer a comunicação do clube, um treinador também impecável. Cheguei cá e senti-me em família, mas sabia que a minha história vinha de trás. Então, tinha de fazer alguma coisa para mudar isso.

Como por exemplo?

Cortei muita coisa e cortei a mim própria, deixei de ter demasiada confiança. Brinco, mas dentro da confiança normal, conheço os jogadores dentro do estádio e, fora, eles não são nada para mim – entre aspas, obviamente que me preocupo com as condições deles e em saber se eles estão bem ou não -, mas tento desligar-me um bocadinho mais, para não levar a que as pessoas façam os ‘contos e ditos’, porque isso afeta. As pessoas gostam de pegar no teu lado pessoal.

Isto é quase…é um bocadinho estúpido fazer esta comparação, mas é quase como se fosses uma figura pública e deixasses de ter vida, mas num meio pequeno. Isso é o que acontece com as mulheres no futebol. A mulher no futebol, se for fisioterapeuta, também passa pelo mesmo. A vida profissional da Mariana é completamente diferente da vida pessoal da Mariana e gostava que as pessoas começassem a entender que toda a gente é assim. As mulheres do futebol são castigadas nisso.

“A vida profissional da Mariana é completamente diferente da vida pessoal da Mariana e gostava que as pessoas começassem a entender que toda a gente é assim. As mulheres do futebol são castigadas nisso”


Como contraria isso e procede, por exemplo, com o plantel do Académico de Viseu?

É difícil explicar como mudei (sorriu). Simplesmente, fechei-me um bocadinho mais, não fui tão ‘Mariana brincalhona’, pois sou uma pessoa que passa a vida a brincar, gosto de levar a vida super bem disposta, há momentos para tudo…há momentos para brincar, para trabalhar, em que temos de ser sérios. Não houve ninguém que passasse dos limites. Nunca! Sempre que precisarem de ajuda, estou cá. Simplesmente, só não saio com eles, que era uma coisa que fazia.


Apesar de ter somente 24 anos, também foi árbitra. Como aconteceu e quando?

A arbitragem entra na minha vida de forma estranha e pelo lado curioso. Eu queria ser jornalista desportiva, foi com essa intenção que tirei comunicação social, mas depois fui parar aos clubes, como diretora de comunicação, e comecei a tentar entender algumas coisas que aconteciam. O porquê dos erros da arbitragem, o porquê de eles errarem, de que forma iam apitar… e tudo isso fazia-me alguma confusão. Uma vez, estou numa rede social a pesquisar e a fazer scroll e aparece-me um curso em Aveiro, com inscrições abertas para árbitro. Era gratuito, por isso acho que não perdi nada em ir tirar e fui tirar o curso. Um bocadinho estranho, arbitragem e diretor de comunicação não são funções compatíveis, dentro dos regulamentos. Tiro o curso em dezembro, faço os testes e começo o ano de estágio de arbitragem quando estava no Anadia. Sempre fui clara com a Associação, que me deu o curso, apesar de trabalhar no Anadia e não podia deixar o clube, ou seja, em dias de jogo, nos domingos, porque antigamente os jogos de Campeonato Nacional de Seniores eram só aos domingos.

Não podia deixar e ao domingo era impensável eu fazer jogos. Então, fazia aos sábados o dia todo, de manhã à noite. Havia sábados em que eu chegava a casa completamente ‘rota’ e uma coisa engraçada é que foi aí que eu comecei a perceber que é normal haver erro, porque não são máquinas! O curso de arbitragem deu-me uma bagagem completamente diferente do que tinha e, se calhar, teria, se não tivesse tirado o curso. Fez-me olhar para os árbitros com muito mais respeito, porque não é fácil. As pessoas que acreditem – não é fácil correr 90 minutos, estar atento a todos os pormenores de um jogo de futebol. Estamos a falar de uma altura em que não havia vídeo-árbitro e não há vídeo-árbitro na II Liga nem nas Ligas inferiores à I Liga.

“O curso de arbitragem fez-me olhar para os árbitros com muito mais respeito, porque não é fácil”


E por vezes há vídeo-árbitro e as dúvidas mantêm-se, não é?

Exatamente! Mesmo com máquinas, as pessoas têm de perceber que, mesmo que exista o VAR, vão existir pequenos erros que não dá para perceber. Como querem que ele veja uma agressão que foi nas costas se possivelmente todos os árbitros envolvidos estão a olhar para onde está a bola?

Tenho pena de que muita gente que esteja no futebol não tenha passado por essa experiência. Primeiro, eu apaixonei-me pela arbitragem, adorava fazer os jogos, especialmente na formação. Os miúdos são incríveis, conseguem aceitar muito mais facilmente uma mulher árbitro do que os maiores, os seniores. Essa é a verdade, os miúdos queriam muito mais que fosse uma mulher árbitro do que um árbitro. Eu recebi esse feed-back.

Será provavelmente a melhor forma de avaliar…

Se houvesse mais diretores a passarem pela experiência de apitar um jogo e a sentirem a pressão de tudo o que se diz sobre si e para si, então acabamos por perceber porquê e de que forma se deve agir. Eticamente, para mim, não é correto falar de arbitragem, porque já estive lá.

O VAR veio para ajudar, mas a decisão é dele e depois as pessoas esquecem-se, nos lances de arbitragem nem todos são de interpretação igual, até se pode ser ex-árbitro e estar-se na televisão a comentar, mas o árbitro pode ter visto uma coisa diferente e ter uma interpretação e uma perceção completamente diferentes do lance. Acho que as pessoas em vez de se preocuparem mais em insultar, em chamar-lhes nomes, deviam preocupar-se mais em perceber o outro lado.

Facilita muito mais a quem está no campo, mas e nos jogos das divisões inferiores, onde são só três? Acho que o facto de ter tirado o curso, de ter exercido, fez-me mais mulher, mais humana e uma melhor pessoa no futebol, acho que toda a gente deveria passar pela experiência.
Não sei se vou voltar, acho que não, mas o ‘bichinho’ está cá dentro e o engraçado é que os jogos que me deram mais prazer em arbitrar foram os das mulheres, porque houve uma ligação muito forte. Éramos todas meninas e todas estávamos ali para o mesmo e acho que é isso que falta no lado do futebol masculino. Olharem para nós, mulheres, como uma essência e não como uma dificuldade.

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