InícioFutebolGrandes Entrevistas"As turcas são talentosas, mas nós ainda somos mais"

“As turcas são talentosas, mas nós ainda somos mais”

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Mariana Jaleca tem 24 anos, é centrocampista, já jogou nos Estados Unidos (Saint Francis Red Flash), voltou a Portugal, ao Damaiense, foi a Itália (Orobica), triunfou na Finalândia, onde compartilhou o balneário no Aland com Cassandra Korhonen, reforço para o ataque do Benfica que apresenta aos leitores do Lado F, e brilha agora na Turquia, adversária de Portugal que empatou a Seleção Nacional – que ambiciona representar -, que enfrenta um surto de Covid (como grande parte das equipas no mundo), ao serviço do Fenerbahçe.

Em exclusivo, uma jogadora tecnicista que considera a formação académica em Psicologia um bom argumento no futuro – mesmo não planeando exercer a carreira -, que o profissionalismo, pela experiência acumulada no estrangeiro, é a via a seguir em Portugal, e que a igualdade de género é uma meta a atingir… dentro de “umas décadas”.

Tirando Covid’s e pandemias, como é que está a correr esta experiência na Turquia?

Está a ser fantástica. Estou a adorar. Desde o primeiro dia que tenho sido tratada como um clube grande deve tratar uma jogadora profissional. Superou, em todos os aspetos, todas as expetativas. E continuam a fazê-lo: vivo num apartamento com excelentes condições, os treinos são todos planeados com cabeça, tronco e membros, os treinadores são todos fantásticos, temos condições de trabalho e fora de campo brutais.

(…)

Antes dos jogos com o Besiktas e o Galatasaray fizemos estágio, durante cinco dias, na Cidade do Futebol da Turquia. Foi muito bom. Deram-nos sempre o que de melhor podíamos ter.

O centro de estágio da Federação turca?

Sim.

E as adversárias também tiveram as mesmas condições?

Não. Também, eram o Galatasaray e o Besiktas, não é? Nem sei se fizeram estágio, mas sendo nós o Fenerbahçe, preferiram pôr-nos a treinar num ambiente de estágio, todos os dias levávamos ali um brainwash: “Somos o Fenerbahçe, temos de ganhar isto”. E foi assim, durante cinco dias estivemos ali em que era só futebol, futebol, futebol e depois, para o jogo parecíamos aqueles cavalos de corrida (risos).

E correu bem…

Correu. Com o Galatasaray ganhámos 7-0, no campo delas, foi um bocado um massacre para o Galatasaray. No primeiro jogo do campeonato, perdemos 2-1. Mas tendo em conta que o Besiktas é uma equipa que já está formada há quase sete anos e nós temos três meses de existência, julgo que nos batemos bem.

É com passos seguros que Mariana Jaleca evolui na Turquia, pelo Fenerbahçe

E a nível de Seleção? A Turquia acabou por “roubar” pontos a Portugal que podem vir a ser importantes nas contas finais… As turcas podem voltar a fazer “estragos”? Como podem ser avaliadas?

Eu não vi esse jogo [Turquia Portugal (1-1)]… Estava a vir da Finlândia. As turcas são talentosas, mas eu acho que as portuguesas ainda são mais (risos). E já estamos num patamar em que nós trabalhamos muito melhor que elas, ao nível profissional. Não tenho assim um conhecimento tão profundo do futebol turco, mas do que já vi, as minhas colegas são todas muito talentosas e é um jogo muito parecido com o nosso. Não usam tanto o físico, é um futebol mais técnico. Mas, sem dúvida, Portugal consegue estar um patamar acima.

“No dia em que a Seleção chegar, será um grande prazer representar o meu país, que tanto adoro”

Ainda no contexto Seleção: o facto de ter o trajeto praticamente todo feito fora de Portugal pode ser prejudicial, ou é um objetivo a perseguir?

A Seleção continua a ser um dos meus objetivos, mas neste momento estou focada no meu clube, para ajudar a equipa a ganhar o campeonato. No dia em que a Seleção chegar, será um grande prazer representar o meu país, que tanto adoro.

O primeiro contrato profissional foi assinado na Finlândia, ao serviço do Aland

Ainda há algum desnível no contexto do futebol feminino português com a realidade na Finlândia, por exemplo?

Infelizmente, ainda há. Para já, porque todos os clubes na Finlândia são profissionais. Todas as jogadoras lá fazem do futebol um trabalho full-time, enquanto em Portugal nem todas as equipas têm essa capacidade. Logo aí, há uma diferença enorme. Se for preciso, em Portugal, as jogadoras trabalharam o dia todo e chegam ao treino já cansadas, é normal. Na Finlândia, fazemos ginásio de manhã, treinamos à tarde, é esse o nosso trabalho.

Mas pelo caminho que está a ser trilhado em Portugal, o profissionalismo é o futuro?

Claro que sim, sem dúvida. E volto a dizer: as jogadoras portuguesas são muito talentosas e quando têm a oportunidade de ter condições profissionais superam-se e elevam-se em termos físicos, técnicos, táticos.

“Se for preciso, em Portugal, as jogadoras trabalharam o dia todo e chegam ao treino já cansadas, é normal. Na Finlândia, fazemos ginásio de manhã, treinamos à tarde, é esse o nosso trabalho”

E nos Estados Unidos, é uma realidade completamente distinta, também…

Sim, é verdade, foi a minha primeira experiência em termos mais profissionais, porque nos Estados Unidos tratam-nos como nos tratam aqui. Dão-nos todas as condições possíveis para nos tornarmos melhores atletas e melhores pessoas. Estou muito grata por ter passado pelos Estados Unidos, porque é uma realidade completamente diferente de todo o lado por onde já passei. E ainda tive a oportunidade de tirar o meu curso de Psicologia, o que é uma grande mais-valia para o meu futuro.

Foi possível conciliar as coisas no futebol universitário, foi isso?

Sim, porque nos Estados Unidos dão grande valor ao desporto. Logo, as aulas são à volta do desporto. Se temos treino de manhã, as nossas aulas são marcadas para de tarde. Não há qualquer choque de horários. O desporto, para eles, é sagrado.

Experiência nos Estados Unidos foi enriquecedora

Mas é importante ter essa formação académica, esse plano B, certo?

Sem dúvida. Aliás, os meus pais sempre foram adeptos de que eu seguisse os estudos, se queria continuar a jogar à bola. Nunca me “cortaram as pernas” pelo futebol, mas sempre fizeram questão que houvesse um plano B, caso tivesse uma lesão, ou alguma infelicidade, dispor de mais argumentos para me defender. E não foi só para fazer a vontade aos pais, também me ajudou a mim, pessoalmente. Não me vejo a exercer a profissão na área da Psicologia, mas ajudou a desenvolver-me como pessoas, tanto dentro, como fora de campo.

“Não me vejo a exercer a profissão” – a Psicologia não faz parte dos planos futuros, então?

Não, por acaso não. Porque sou uma pessoa muito ativa, vejo-me muito mais no meio do futebol. Seguir as pisadas da Raquel [Sampaio, agente de Mariana Jaleca], ou mesmo na área do scouting, porque gosto muito de analisar os novos jogadores e ver o seu talento e avaliar.

Como foi a passagem pelo Damaiense? Foi muito fugaz…

Foi, foi uma passagem muito rápida. Estávamos na fase em que “disparou” o Covid, não tinha propostas de mais nenhum lado e o Damaiense foi o clube que me deu a mão e permitiu o meu regresso a Portugal e a lançar aquilo que viria a ser o meu futuro profissionalismo.

Que surge a seguir ao Damaiense, é isso?

Ainda estive em Itália, pode-se dizer que já ganhava para mim, mas os contratos ainda eram amadores. O meu primeiro contrato profissional foi mesmo na Finlândia, com o Aland.

“Igualdade de género no horizonte? Sim… Daqui a umas décadas, talvez. É uma luta que temos de continuar a travar”

Ainda há muitas desigualdades, mas pode dizer-se que a igualdade de género já se perfila no horizonte, por assim dizer?

Sim… Daqui a umas décadas, pode ser que sejamos tratadas como os homens são tratados. Sem quaisquer preconceitos, sem quaisquer diferenças. É uma luta que nós, mulheres, temos que continuar a travar – e nem só mulheres, também homens que nos apoiam e que têm de continuar ao nosso lado. Porque eu tenho a certeza que as mulheres, um dia, vão fazer muito a diferença neste mundo, porque nós amamos mesmo tudo o que fazemos, de coração.

Mariana Jaleca com Cassandra Korhonen, nova ponta de lança do Benfica

“A Cassandra vai ser um mimo para a Kika: cada bola que lhe passar, vai ser golo! Certinho!”

Na Finlândia, no Aland, havia uma jogadora que ganha agora particular interesse: a Cassandra Korhonen, que assinou pelo Benfica. O que podemos saber sobre ela?

Fiquei muito feliz com a decisão que ela tomou. Aliás, nós – eu e a [Catarina] Realista, outra portuguesa que jogou no Aland comigo – insistíamos muito que elas viessem a Portugal, conhecer a nossa cultura, a nossa comida – a Realista costumava levar pastéis de nata e coisas assim mais portuguesas (risos) – e receber a notícia que a Cassandra estava a ir para Portugal e a assinar por um dos grandes clubes portugueses, fiquei muito feliz.

Mas apelando à Mariana scout, como poderia ser avaliada a Cassandra?

Numa escala de 0 a 5, tinha de lhe dar um 5. Ela é uma ponta de lança pura. Tem um pé esquerdo que qualquer guarda-redes teme quando ela mete aquele pé na bola. É uma jogadora muito rápida, se for preciso defender, defende, pressiona nos tempos certos, apoia imenso a parte do ataque e, quase sempre, quando ela vai no um para um é golo. Quase sempre (risos). Foi uma das melhores pontas de lança com quem já joguei.

Uma ponta de lança letal, é isso?

Sem dúvida. Quando soube que a Cassandra ia para o Benfica, pensei logo: “A Kika Nazareth vai achar isto um mimo!” Porque todas as bolas que passar para a Cassandra, ela vai fazer golo. Certinho! Vamos ver se é o que acontece… Tenho quase a certeza que estou certa (risos).

Ter a companhia da Catarina Realista na Finlândia foi importante? Ainda vão falando?

Sim, vamos falando, quando dá. Mas sim, sem dúvida, foi muito importante. Morávamos as duas juntas, na mesma casa, e foi a primeira vez que tive uma portuguesa a morar comigo, fora do país. Havia uma cumplicidade muito grande e até para praticar o português, porque o meu cérebro já funciona em inglês (risos). Mesmo dentro de campo, a linguagem que usávamos, havia ali uma ligação muito boa.

(Fotos: Teammate Football Management)

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