Catarina Realista cumpre sonho na Finlândia: “Foi incrivelmente rápido”

Foi a partir de Helsínquia, a poucas horas de nova viagem para a ilha de Aland, que Catarina Realista, com extrema simpatia, “esquecendo” uma tarde de viagem, falou com o Lado F. A médio portuguesa, ex-Futebol Benfica, deixou Lisboa esta terça-feira e inicia agora uma nova aventura no novo clube, o Aland United, onde terá a primeira experiência profissional. Em tempo de pandemia e restrições inerentes, a médio ainda passou por uma situação complicada na escala que fez em Frankfurt. “Só finlandeses e pessoas com profissões essenciais estão a ser autorizadas a entrar em Helsínquia e tendo contrato de futebolista, estive até ao último minuto para saber se podia embarcar, mas tudo correu bem, felizmente”, revela a jogadora de 25 anos que assinou por seis meses, até outubro e depois de cumprir sete dias de quarentena, sozinha numa casa, estará disponível para o arranque do campeonato, a 17 de abril.

Conte-nos como foi todo o processo de mudança.

Foi incrivelmente rápido, do nada. No ano passado, antes do confinamento, tinha dado a entender que queria jogar para fora de Portugal. Com a covid e incerteza futura no futebol, acabei por ficar no Futebol Benfica mais uma época, mantendo também o meu trabalho. Tirei Gestão Empresarial e trabalho no departamento financeiro de uma empresa. Há duas semanas, fui contactada pelo clube e disseram-me que tinha as características que pretendiam e se podia ir de imediato. Falei com o Fofó e apoiaram-me, também porque sou uma ‘querida’ no Fofó por ter muitos anos de casa. Eles sabem o que isto representa para nós e não podem concorrer com um contrato profissional, mesmo que as equipas amadoras tentem dar melhores condições às jogadoras.

E na sua empresa?

Falei com eles. É o meu primeiro contrato profissional e isto é algo que queria muito, mas são apenas seis meses e depois veremos o futuro. Estava há dois anos na empresa, como efetiva e foi um passo muito ponderado e pensado. Pedi uma licença sem vencimento por seis meses, mas não aceitaram e vou ficar em teletrabalho a partir da Finlândia. Desde o início do ano que estava em teletrabalho em Portugal e o mês de abril será um mês de teste para ver se consigo dar resposta positiva em termos de trabalho, até porque os treinos aqui serão à hora de almoço.

Realista revela grande carinho pelo Fofó, que representou por seis épocas (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Mas passando a ser profissional, na prática continua no mesmo regime em que estava no Fofó, porque mantém a sua outra profissão?

Exatamente [risos]. Na verdade, com um contrato profissional, acabamos por ter muito tempo morto e vou continuar na minha empresa. Depois de abril, veremos como será. Foi-me dada esta hipótese e não iria recusar, porque são só seis meses e assim jogo pelo seguro. Não me quis despedir, mas ter uma licença sem vencimento e entendi perfeitamente que ficarem seis meses sem alguém na minha posição seria complicado e sinto que este é o melhor plano, o melhor acordo. Espero gerir bem o meu tempo e dar resposta. A minha empresa tem sido incrível e disseram que não me iriam cortar as pernas no meu sonho. Assim, beneficiam ambas partes. E na minha equipa também houve apoio total e ajuda nessa situação. Não podia pedir pessoas melhores a cuidar de mim, têm sido cinco estrelas.

“Pedi uma licença sem vencimento seis meses, mas não aceitaram e vou ficar em teletrabalho a partir da Finlândia”

Como viveu este último jogo com o A-dos-Francos? Deu por si a pensar que numa fase crucial, sendo titular, ia deixar o Fofó com menos um elemento importante?

Claro que pensei muito nessa questão e um dos requisitos era que só iria depois deste jogo. O meu novo treinador até me enviou mensagem na véspera do jogo a desejar sorte e a dizer ‘não te aleijes’ [risos].

Saiu da melhor maneira com a vitória por 3-0…

Para mim, o melhor será quando elas conseguirem a manutenção. Acho que além da história do clube, há muita qualidade.

Em que pensou quando foi substituída?

O pensamento era de que os três pontos iam ser nossos, faltavam poucos minutos para o fim, estava 3-0 e só pensei no Fofó e não na Finlândia. Saio de consciência tranquila. Dei tudo para ganharmos e vou estar cá para apoiá-las até ao fim. O Fofó vai ser sempre a minha equipa querida. Estive dois anos no Fofó, depois passei pelo CAC, fui bicampeã no Fofó, saí para os Estados Unidos, voltei e tenho maior carinho pelo Fofó. É um sítio onde fui muitas vezes feliz e essas recordações vão ficar para sempre.

“A Raquel Infante falou muito bem da equipa e das condições oferecidas e disse-me que iria valer a pena”

Neste período de tempo, aconselhou-se com Raquel Infante, que jogou precisamente neste clube?

Falei. A Raquel é minha amiga e quando voltei dos Estados Unidos, ela estava a sair do Fofó para esta equipa e treinámos umas duas ou três semanas juntas. Falou muito bem da equipa e das condições oferecidas e disse-me que iria valer a pena. Teve peso e levei em consideração essas palavras, ainda por cima é a equipa campeã, vencedora da Taça e vai à Champions.

A médio, aqui a cabecear a bola, desempenhou várias vezes funções de central (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Que objetivos coletivos tem?

É revalidar o título, ganhar a Taça e ir o mais longe possível na Champions. Obviamente, que não nos comparamos às melhores da Europa, mas temos ambições e quero ajudar a equipa a esse nível. Confesso que queria muito ser campeã finlandesa. Já ganhei o campeonato português e nos Estados Unidos também e queria voltar a ganhar.

Tendo em conta as restrições, estará seis meses sem voltar a Portugal e dificilmente receberá visitas dos familiares. Como lidaram os seus pais com a situação?

Os meus pais nunca gostaram muito que jogasse futebol [risos]. Nunca me impediram, mas também não são daqueles que vão ao estádio ver-me. Tem sido um processo lento, mas construído passo a passo. Sempre me obrigaram a terminar o curso, até ao mestrado, mas sempre consegui conciliar ambas as coisas. Aqui arrisquei um trabalho por uma aventura de seis meses. Não acharam que estivesse a ser muito responsável na gestão da situação, mas agora face ao que expliquei do acordo laboral, até ficaram mais entusiasmados e até pensam vir cá. Mas é sempre difícil estar a esta distância de casa, até na parte pessoal, longe dos pais, amigos e namorado.

“Vão dar-me uma bicicleta para poder andar pela ilha à vontade e ir para os treinos sem problemas. A língua não será barreira”

Qual a principal dificuldade que terá no novo país?

Acho que será o clima e o facto de viver numa ilha pequena, em comparação com Lisboa e o stress da cidade. Vão dar-me uma bicicleta para poder andar pela ilha à vontade e ir para os treinos e bicicleta. A língua não será barreira. Claro que não sei finlândes, mas falo inglês como português e a esse nível vai ser fácil. Sou também extrovertida e penso que vai correr bem.

Em Portugal, estamos quase no final da época. Não vai ter férias, vai jogar um ano completo.

É verdade, mas com tantas paragens, só começámos o campeonato em janeiro, com os jogos consecutivos. Assim que acabar aqui o contrato, espero não parar, portanto continuar a jogar sem pausa.

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bem Real. Que tudo aconteça conforme os teus desejos, que sejas feliz aí quanto foste no Futebol Benfica, aqui tens sempre a porta aberta. Foste sempre uma atleta exemplar e viveste grandes momentos que naturalmente vão perdurar para todo o sempre. Saúde e sorte, mil beijos

Deixe um comentário!

spot_img
Últimas NOTÍCIAS