Circuito inédito a promover igualdade de género

Catarina Ribeiro começou a praticar rugby apenas aos 21 anos, quando estava no Brasil a estudar, em 2012. Este fim de semana, a jogadora do Sport Club Porto será uma das 10 portuguesas a competir na etapa inaugural do circuito mundial de Tens. Com várias jogadoras internacionais no nosso país, na Cidade Universitária, em Lisboa, será a primeira vez que haverá rugby profissional feminino em solo nacional, com a importante particularidade de o torneio ter a mesma remuneração para homens e mulheres.

“Felizmente, temos vivenciado algumas etapas de elevada qualidade, mas pela falta de apoio financeiro nunca temos oportunidade de fazer uma preparação como deve ser. Estar incluída numa equipa com jogadoras profissionais e ser profissional é fantástico. Andamos aqui há muitos anos e uma oportunidade destas parece quase inatingível para portugueses. Quanto à remuneração tem sido uma luta internacional, seja no futebol ou outras modalidades. Nós não temos essa força, por falta de visibilidade, mas temos capacidade para isso e é algo único”, diz a atleta que defenderá as Balkans Honey Badgers, sendo orientada por Pedro Neto e tendo Vera Simões na mesma equipa.

Catarina treina os sub-14 e sub-16 do Sport Clube do Porto

Catarina está pronta para dar o máximo e relembra a qualidade das jogadoras nacionais, com um exemplo: Portugal, seleção amadora, eliminou a Holanda, profissional, em 2016. “Fomos a terceira equipa a garantir a repescagem olímpica, que tinha um programa profissional de sevens. O projeto delas acabou, porque vencemos. Ficámos um bocadinho tristes, porque os homens não conseguiram e o falhanço deles esteve nos jornais e a nossa vitória não”, lamenta sobre o ponto mais alto do rugby feminino nacional. “É possível, mas é preciso que nos apoiem”, completa. Para já, as etapas seguintes em Paris, Cidade do Cabo e Las Vegas ainda não estão totalmente fechadas, mas o objetivo é claro. “Pensamos estar em outras etapas, mas sonhamos estar em Cape Town, Las Vegas e fazer o que mais adoro. Queremos desfrutar, estamos a viver uma realidade diferente, até porque a nível global o que se joga mais é sevens e XV. Eu a Vera somos as únicas que jogámos Tens na nossa equipa, mas queremos apresentar um bom rugby. Temos imensas nacionalidades nas equipa e há que juntar todas as peças”, aponta, pretendendo “o máximo de vitórias possível”. Cada equipa terá também uma formação de sub-19.

“Fomos a terceira equipa a garantir a repescagem olímpica. Ficámos um bocadinho tristes, porque os homens não conseguiram e o falhanço deles esteve nos jornais e a nossa vitória não”

Vera Simões e Catarina Ribeiro

Paixão nascida no Brasil

Catarina Ribeiro jogava andebol, mas no Brasil com as colegas que praticavam rugby, tomou-lhe o gosto e nunca mais largou a modalidade. “Parecia que tinha o rugby nas veias desde sempre. Fiquei rendida, ainda por cima o povo brasileiro é muito divertido, foi muito fácil. A união faz parte dos valores do rugby, como o companheirismo”, destaca. Voltou ao Porto em setembro de 2012, procurou um clube e juntamente com o professor Nuno Gramaxo, nomes como Isabel Leite e Deolinda, capitã de equipa, foi responsável pela reativação da secção de rugby no Sport Club do Porto que há três anos passou a ter secção masculina também.

Professora, PT, treinadora e jogadora

Em 2018, Catarina Ribeiro partiu para França, onde jogou no Stade Toulousain. Apesar de ter sofrido uma lesão, faz um balanço positivo. “Comecei como suplente na equipa 2 que jogava na fédérale 1 (nível 2 do campeonato francês) e passei a titular. Depois fui suplente na equipa 1 (elite 1, melhor campeonato feminino francês) e veio a lesão, mas ainda fiz os últimos dois jogos da fase final”, diz. “Sou uma doida e fui para ter uma experiência profissional fora de Portugal. Fi-lo por minha conta e risco, tirei uma semana de férias para treinar e fiquei. Não sabia falar francês e fui mesmo à maluca, sem ter casa e sem trabalho. Fiquei até maio e fiz o campeonato de rugby de XV”, lembra a internacional portuguesa. Regressou com um conhecimento diferenciado. “É uma organização totalmente diferente do que existe em Portugal, num clube de elite no masculino e feminino. Foi fantástico ver como organizam tudo. Toda a gente queria ver um jogo, como nós aqui vemos futebol. Podíamos estar no estádio juntas com jogadoras de outro clube e tínhamos por hábito ir vestidas a rigor”, conta Catarina, licenciada em Educação Física, com mestrado em Ensino. “Sou professora de Educação Física e PT. Além disso, sou treinadora dos sub-14 e sub-16 do Sport Club do Porto”, conta.

Catarina é PT

O longo caminho e quebrar barreiras no feminino

Para Catarina, há um longo percurso a fazer no rugby feminino nacional, devido a uma questão cultural. “Há poucas mulheres. O rugby é para quem quiser, seja os mais jovens, mais velhos. Muitas mulheres pensam que é muito duro e bruto e não vêm praticar. As pessoas não conhecem, mas é como no andebol. Eu joguei e se calhar é ainda mais bruto, mas de uma forma mais escondida. No rugby é termos preparação física para praticar e quando não temos medo de fazer e estamos preparadas, é muito mais fácil de jogar e muito mais bonito”, refere, quebrando o preconceito. “As meninas até dão um salto mais rápido e sobressaem em comparação com os meninos sub-12, sub-14, porque são mais rápidas e muito inteligentes a jogar, não só em termos de contacto mas também ao perceber o jogo e a dar bola aos colegas e pôr a equipa a jogar. Acaba ser giro ver as meninas e não é fácil. Somos fantásticas”, diz. “Só soube do rugby feminino no outro lado do Atlântico. No Norte, só havia o CDUP e os Arcos de Valdevez, mas não há uma estrutura de base e não há renovação de meninas para a equipa sénior”

(Fotos: Reprodução Facebook Catarina Ribeiro)

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