InícioFutebolNacional"Estar no Benfica é um sonho, mas ganhar asas e voar, também"

“Estar no Benfica é um sonho, mas ganhar asas e voar, também”

Carolina Vilão, aos 20 anos, dá voz ao orgulho de defender de águia ao peito, mas não esconde a ambição de chegar a patamares mais altos na Europa

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Ao lado de duas internacionais brasileiras – Dani Neuhaus e Letícia Izidoro -, Carolina Vilão, de apenas 20 anos, continua a somar minutos na baliza do Benfica, o que a levou, para já, à Seleção Nacional B recentemente criada.
Em conversa com o Lado F a talentosa guardiã, que foi titular na maior parte das partidas disputadas pelas águias na Liga dos Campeões e defendeu a baliza benfiquista na primeira de duas Taças da Liga conquistadas pelo clube nos primeiros meses de2021, não coloca limites ao seu crescimento, mostrando-se ciente de que se encontra no local certo e a trabalhar com as pessoas certas para continuar a evoluir e tornar o sonho realidade: jogar no Benfica, cumprido, e dar o salto. Conheça, então, o percurso consistente de Carolina Vilão até ao momento.

Aos 20 anos, num clube como o Benfica, na luta por todos os títulos, esperava ser tão utilizada, com doze jogos, entre os quais duas finais?

Acho que este ano temos trabalhado bastante e eu tenho evoluído bastante com as minhas colegas de baliza. Acho que apostaram em mim e eu consegui dar uma boa resposta e por isso é que consegui fazer tantos jogos. Para mim foi muito bom, voltei com muita experiência ‘lá de cima’ (NDR: esteve emprestada ao Valadares Gaia em 19/20) e então fazer doze jogos, dois deles finais… finais que nunca tinha jogado, é muito bom.

Além disso, há o peso da concorrência: a Letícia, que é presença assídua na seleção do Brasil, e a Dani, que também já lá esteve. Isso um benefício para si no aspeto da aprendizagem?

Sim, claro. Tenho aprendido muito com elas, ambas têm benefícios para mim, trazem coisas novas para mim… aprendem-se sempre coisas diferentes com cada uma delas, o método de trabalho no Brasil é diferente de cá e elas vêm com um andamento muito superior ao que nós tínhamos cá e acho que foi isso, o profissionalismo delas, que me fez crescer também.

Carolina Vilão já comandou as águias de entre os postes uma dúzia de vezes esta época (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

A Letícia chegou em janeiro, mas teve logo muito impacto, até pelo estatuto que já tinha no Brasil. Isso notou-se no grupo? Elevou a competitividade para quem já estava no Benfica?

Acho que temos todas sempre muita competitividade, não só por ter chegado a Letícia. Acho que ela é uma grande guarda-redes e que veio trazer, sim, coisas novas ao grupo e isso também nos faz crescer, mas acho que nós sempre tivemos competitividade umas com as outras, não só com as guarda-redes, como também com as outras jogadoras. A Letícia trouxe coisas novas, mas já cá havia coisas muito boas, ela só veio ajudar.

Antes da chegada da Letícia, dividia a baliza com a Dani Neuhaus, uma guarda-redes com muito tempo de Benfica e muita experiência acumulada. Foi importante ter alguém com esse perfil ao lado?


Sim, claro que sim. A Dani é mais experiente que eu, tem mais alguns anos e foi também importante aprender um pouco com ela, com o profissionalismo e o trabalho dela, coisas que não víamos cá em Portugal, a fazer vida do futebol, a trabalhar todos os dias para ser melhor, e acho que aprendi muito com elas as duas e com a Dani, que estava cá há mais tempo, aprendi bastante.

Com apenas 20 anos, já jogou duas finais – a Taça de Portugal e a Taça da Liga -, algo que muitas jogadoras com mais idade não conseguem… Esperava disputar duas finais tão importantes tão cedo?

Sempre o esperei, porque estou no Benfica e então há o trabalho que fazemos todos os dias para sermos um dia opção e darmos uma boa resposta. Já esperava por isto há algum tempo, estava ansiosa por poder jogar uma final, acho que é sempre o sonho de uma jogadora. Apostaram em mim, o Benfica apostou em mim e só tenho de estar orgulhosa de mim e do trabalho que fizemos em campo e nos estágios.

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Insistindo sobre a juventude da Carolina e jogar finais de competições tão importantes, ante adversários tão equiparados com o Benfica em jogos de tanta responsabilidade, significa que o topo é possível para si?

É para isso que trabalho, eu e as minhas colegas. Somos um grupo novo no Benfica, somos todas muito jovens e acho que trabalhamos para conseguirmos dar mesmo uma boa resposta e darmos se calhar um salto no futuro. Tenho 20 anos, mas às vezes sinto que não tenho só isso (sorri) e acho que a parte que também me fez crescer também, e que é muito importante para um guarda-redes, é ser-se maduro, porque temos uma posição completamente diferente dos outros. Acho que também me fez crescer muito estar também com pessoas mais velhas, mais experientes…

Mesmo num trabalho de grupo de guarda-redes elas são mais experientes que eu e aprendo bastante com elas e acho que ter 20 anos e estar aqui é um privilégio. É preciso muito trabalho, mas também é preciso muito trabalho para todas, não só para mim. Talvez um dia possa dar um salto maior

“Acho que ter 20 anos e estar aqui é um privilégio. É preciso muito trabalho, mas para todas, não só para mim. Talvez um dia possa dar um salto maior”

Numa fase de apuramento de campeão, na qual cada substituição conta e normalmente uma troca de guarda-redes é vista como uma ‘substituição queimada’, o Benfica mantém a aposta em si. É um voto de confiança no seu trabalho?

Acho que sim, que eles apostam bastante em nós e acho que trocar de guarda-redes é um voto de confiança em mim e não é mau, de todo, eu sentir que também sou uma aposta, tanto eu como a Lelê, que foi quem também trocou comigo. Acho que somos as duas aposta: eu sou mais nova, a Lelê é muito experiente, uma guarda-redes muito forte, acho que porem-me a 30, 40 minutos do fim, é um voto de confiança para mim, para eu continuar a trabalhar e um dia eu poder chegar ao lugar onde quero chegar.

Isso pode ser entendido, no limite, como o Benfica não ter uma hierarquia definida para as guarda-redes? As três estão niveladas por igual?

As três trabalhamos para o mesmo objetivo e as três conseguimos dar a resposta certa, quando chegamos ao fim-de-semana. Acho que é isso que a equipa técnica procura, é que as três estejam preparadas para jogar e é também para isso que trabalhamos toda a semana. Acho que não é bem uma hierarquia, mas o trabalho durante a semana que fazemos para as três estarem dispostas para o jogo, é mais isso.

Carolina Vilão defrontou o Chelsea na 1ª mão da 3ª eliminatória da Liga dos Campeões (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Na Liga dos Campeões, fez três dos quatro jogos na prova. Nesta fase da sua carreira, ainda tão jovem, é um marco importante da sua evolução?

Sim, claro. Acho que qualquer jogadora sonha um dia jogar uma Champions League e para mim foi muito bom darem-me essa oportunidade e eu consegui responder em campo a esse desafio de fazermos um bom marco, sendo a nossa primeira época na Champions League. Acho que foi muito bom para nós e para mim pessoalmente também, porque era um sonho e conseguir dar uma boa resposta é sempre muito bom.

Este pode ter sido o ‘ano zero’ para o Benfica passar a jogar a Liga dos Campeões com regularidade?


Acho que sim, não só o Benfica como também todo o futebol feminino português. Acho que uma equipa portuguesa ir à Champions e conseguir dar uma boa resposta é sempre uma porta não só para o Benfica; para o Benfica é muito bom, porque é o Benfica, é um clube muito grande em Portugal e fora, no mundo inteiro, mas também para o futebol português é muito bom porque a cada ano que passa, cresce. Então, conseguirmos responder bem lá fora é muito bom para o futebol português, mas também para nós.

“Ir à Champions e conseguir dar uma boa resposta é bom para o Benfica, mas também para o futebol português que, a cada ano que passa, cresce”

Jogou na Champions, na Liga BPI… e na III Divisão pelo Benfica B. Isso mostra o que a Carolina é enquanto profissional e pessoa? Existe aqui a humildade de ser opção para o Benfica seja a que nível for?

Sim, acho que é sempre uma oportunidade experienciar outras realidades e ir à III Divisão também é ajudar a equipa B, poder fazer minutos e tentar ajudar ao máximo. Não importa onde se está, o importante é representar o Benfica, tem de se ser o mais profissional possível.

Como referiu, foi ‘lá acima’ ganhar minutos e experiência numa época de empréstimo ao Valadares. Na altura, não era muito comum, ficou com a sensação de que era uma aposta? Que o Benfica teve essa preocupação de garantir-lhe minutos para que voltasse mais forte?

Acho que sim, que o Benfica teve esse cuidado porque nós, sendo muito novas, precisamos também de jogar. Estar no Benfica é sempre muito bom, mas para nós, que somos jovens, jogar é muito importante, acho que ter ido para o Valadares me fez crescer imenso, mesmo muito. Fiquei mais madura, ganhei mais confiança, joguei, fui aposta lá… Gostei muito de lá estar, mas o meu sonho sempre foi ser o mais profissional possível no futebol e ter voltado ao Benfica também foi uma coisa muito boa para mim – dá para seguir mais profissionalmente a carreira no futebol. Fui aposta este ano e estou muito grata por isso.

“Ter ido para o Valadares fez-me crescer imenso. Fiquei mais madura, ganhei mais confiança, joguei, fui aposta… Mas o meu sonho sempre foi ser o mais profissional possível e ter voltado ao Benfica foi muito bom, dá para seguir mais profissionalmente a carreira no futebol. Fui aposta este ano e estou muito grata”

Acabou por completar nessa época de empréstimo ao Valadares a sua formação, que passou por Benfica… e Sporting. Isso nota-se? A Carolina tem uma ‘bagagem’ diferente e superior relativamente a outras guarda-redes da sua idade?

Penso que na minha geração temos guarda-redes muito boas, que estão a evoluir e também estão a evoluir em clubes da Liga BPI, clubes grandes, temos jogadoras no Braga, no Albergaria… Mesmo o Sporting tem guarda-redes praticamente da minha geração. Acho que ter vindo para o Benfica e ter estado no Sporting pode ser uma das razões para ter uma formação muito boa. Comecei também a jogar muito cedo e por isso pode ser uma das razões para ter uma formação boa.

Diferencia, claro, estar num Benfica ou num Sporting, mas acho que a minha geração tem guarda-redes muito boas estando num clube grande ou não. Está a dar para ver, agora também com a convocatória da Seleção Nacional B, que as guarda-redes da minha geração estão a aparecer e não só nos clubes grandes.

O seu primeiro clube no feminino foi o 1º Dezembro, que era uma equipa muito bem-sucedida. Antes, no Atlético, ainda jogava integrada com rapazes. Uma primeira experiência num clube tão forte no futebol feminino foi o que a fez sentir que era isto que queria?

Sim, quando comecei a treinar no 1º Dezembro jogar no feminino deu para ter uma perspetiva sobre o que queria para o futuro, para começar a ver que, se calhar, nos anos seguintes, o futebol feminino podia ser profissional. Quando fui para o 1º Dezembro, o clube tinha uma equipa que não perdia havia 11 anos, se não me engano… Foi olhar para aquela equipa e dizer ‘eu quero mesmo isto’. Eu jogava com os rapazes, mas depois quando passei para o feminino, vi que era isto que queria e acho que foi aquele ‘clique’ que me deu, de ver aquelas jogadoras a ganharem campeonatos, que me motivou a seguir o meu sonho.

Nesse percurso iniciado no 1º Dezembro, continuado no Sporting e no Benfica e com aquele empréstimo ao Valadares Gaia na época passada, acabou por chegar a internacional – representou as seleções nacionais sub-17 e sub-19 e agora está na B, que é sub-23. Está a cumprir todas as etapas necessárias para mais tarde chegar à Seleção A?

Acho que sim e qualquer jogadora, quando passa pelas camadas jovens da Seleção Nacional, tem sempre o sonho de chegar à Seleção A e poder integrar esse grupo, é sempre o sonho para qualquer jogadora. Acho que tendo feito essas etapas todas posso estar mais próxima disso, trabalho todos os dias no clube – porque o importante é trabalhar nos clubes – para um dia poder chegar lá, à Seleção A. Trabalho todos os dias para isso e não só para isso, para poder também dar uma boa resposta no clube.

A Seleção B é uma boa ‘montra’ para se mostrar ao selecionador nacional A?

Sim, penso que todas as chamadas à seleção, qualquer que seja o escalão, são sempre uma montra para nos mostrarmos a nós e ao trabalho que temos feito no clube. Acho que ir à Seleção B é uma boa oportunidade para também mostrar o que temos trabalhado e é esse o objetivo. É mostrar-me lá para um dia também poder estar com as minhas colegas na Seleção A, ou até mesmo na Seleção B, acho que é uma boa oportunidade para mostrar o bom trabalho que tenho feito.

A ombrear com internacionais brasileiras, não arreda pé e leva doze jogos na baliza das águias (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

O Benfica tem feito uma época muito regular (perdeu com o Chelsea na Liga dos Campeões, com o Braga na final da Taça de Portugal e duas vezes na Liga BPI, com o Sporting, que bateu na final da Taça da Liga). Isso comprova a qualidade do plantel? Que o Benfica tem a capacidade necessária para ganhar tudo?

Penso que estar no Benfica também é isso, é nós todos os dias também trabalharmos para isso, para ganhar, para fazer o nosso melhor, para dar uma boa resposta no jogo. Acho que temos conseguido fazê-lo e, com o plantel que nós temos, também não tem como não o fazer, temos boas jogadoras, de muita qualidade e trabalhamos todos os dias para isso.

Face ao equilíbrio na Liga BPI, há espaço de manobra para falhar (perder pontos), tendo em conta que o Sporting ainda não foi derrotado neste campeonato?

Nós nunca pensamos em falhar. Acho que pensamos sempre em dar tudo em campo pelo emblema que temos ao peito. Tanto em treinos, como em jogos, pensamos sempre em trabalhar para melhorar e não falhar, estar no Benfica já em isso, é pensar sempre em ganhar e é isso que temos de pensar e não pensarmos em falhar. Quando falharmos, temos de nos levantar e ir à luta.

“Nós nunca pensamos em falhar. Estar no Benfica já é isso, pensar sempre em ganhar. Quando falharmos, temos de nos levantar e ir à luta”

A época no Benfica é iniciada com um treinador, o Luís Andrade. Como é agora trabalhar sob o comando de outra treinadora, a Filipa Patão?

Acho que é também diferente ser-se treinado por uma mulher. Acho que foram, são, métodos de trabalho diferentes e ambos foram aceites pelas jogadoras. Acho que tanto um como o outro conseguiram estar bem e nós também.

Aos 20 anos, como perspetiva o futuro a médio/longo prazo? O objetivo é continuar no Benfica por muitos anos? Assumir em definitivo a titularidade da baliza do Benfica?

É claro que sim, gostava de continuar no Benfica, mas sempre tive o sonho de um dia talvez poder ganhar outras asas e ir para fora. Sempre sonhei jogar fora de Portugal, mas sei que para isso preciso de trabalhar muito. É muito difícil, é preciso ter uma valorização muito grande, estar no Benfica para mim é um sonho e poder um dia ‘ganhar asas’ e ir para fora também o é.

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