Formar com os olhos postos no futuro

Prestes a completar dois anos, a Academia de Futebol Feminino de Oeiras é num projeto que dá bases às jogadoras desde pequeninas

Alegria, sorrisos abertos nas crianças que correm e têm contacto com a bola, monitorizadas pelos treinadores. Ali, bem perto do relvado, os pais assistem à evolução das filhas, desde tenra idade, numa fase em que as mais pequeninas aprendem, mas estão essencialmente a conviver com as amigas, divertindo-se. Estamos na Academia de Futebol Feminino de Oeiras, local onde, à semelhança de muitos outros, o alívio das medidas restritivas permitiu já há algum tempo a retoma da atividade na formação. De um lado, está o escalão sub-10, do outro treinam as sub-15.

Antiga jogadora – participou na Champions e foi vencedora de todas as provas em Portugal –, Ana Teixeira acompanha-nos. Fundadora e coordenadora da Academia, criada a 24 de setembro de 2019, ainda antes da pandemia, olha embevecida para todas as meninas e assiste à conversa com o trio que se abeira da nossa reportagem. Catarina, nove anos, é conhecida por “Ronaldo” e diz-nos que tem… Cristiano Ronaldo, Salah e Neymar como jogadores que admira. Tal como Catarina, Margarida “Mimi”, sete anos, gosta de treinar e recentemente até ganhou uma medalha pela Academia numa prova de atletismo dos Jogos de Oeiras. Inês, cinco anos, gosta “do treino inteiro” e até controla melhor a bola que o irmão gémeo Pedro, que está por perto… Afirmam que gostam de correr e de marcar golos, claro. E se o regresso ao relvado marca “a normalidade”, durante o confinamento, não deixou de haver treinos online, mas com as devidas cautelas, para não partir tudo lá em casa…

Catarina, Margarida e Inês voltaram a jogar à bola juntas (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Tem a palavra Ana Teixeira, mãe de duas meninas. “A ideia nasceu de um sonho de ter uma academia de futebol, pois toda a minha vida foi dedicada a isso e, com a experiência, reparei que o futebol feminino precisava de projetos que se dedicassem exclusivamente a essa ideia, que lhe dessem prioridade e foi aí que nasceu a ideia de ser exclusivamente feminino”, explica, acrescentando que as filhas ditaram o adeus ao futebol. “A maternidade na jogadora de futebol ainda é um tema pouco desenvolvido e apesar dos progressos recentes, as estruturas não estão preparadas para reagir a isso. Requer especificidade e acompanhamento e a maioria dos clubes ainda não consegue responder”, conta a antiga central. Ciente de que o futebol “é maioritariamente um mundo masculino” e que as equipas femininas ficam com os horários mais tardios nos clubes, “não adequados às idades das praticantes” e mesmo ficando com “os treinadores sem experiência e muitas vezes sem formação”, Ana Teixeira foi abordada por vários clubes para dar início a um projeto de futebol feminino, mas tendo em conta as condições dadas, iniciou o seu, onde projeta as suas ideias e aplica as decisões.

Ana Teixeira, fundadora e coordenadora da Academia (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Desta vez, Leonor Afonso, nove anos, não pode treinar. Com a mãe ao lado, está de muletas. Magoou-se na escola, a defender. Curiosamente, o que mais gosta até é de marcar golos e nos intervalos na escola, lá está Leonor com uma bola ao lado dos rapazes. Para já, ainda é a única menina com o gosto pelo futebol. A mãe Patrícia apoia a filha na prática desportiva e conta que a descoberta da Academia foi sensacional. “Adorámos”, afirma.

Leonor magoou-se na escola, a defender, em vez de… marcar golos (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Ana Teixeira está ligada ao treino desde os 18 anos – tem 26 – em vários clubes e escalões, seja no masculino, ou feminino. Na Academia, já desempenhou o papel de treinadora de todos os escalões e agora é “apenas” a coordenadora. “A Academia cresceu e necessitei de contratar treinadores para dar resposta a esse crescimento. Todos os dias, aprendem a minha metodologia e trabalham dentro da minha ideia. É um conceito muito interessante que estamos a desenvolver ligando o desenvolvimento da jogadora portuguesa ao próprio jogo”, explica a ex-jogadora de Futebol Benfica e Estoril.

Pela Academia passam cerca de 80 atletas dos quatro aos 60 anos, mas a perspetiva é crescer, até porque a necessidade de formar, seja nos clubes, ou por via de uma academia, como esta, é premente.

Na Academia evoluem cerca de 80 atletas, entre os quatro e os 60 anos (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Em Oeiras, as equipas de competição treinam três vezes por semana, enquanto formação e seniores sem competição, treinam duas vezes por semana.

Joana Martins: treinadora que transporta a experiência de jogadora

Com as sub-15 e sub-19 está Joana Martins, de 21 anos, jogadora do Futebol Benfica e treinadora principal das equipas de competição (Pedro Silva é o treinador das sub-10, Pedro Vieira está a estagiar, bem como Beatriz Amador, preparadora física). “Estou na Academia desde o início. Aconteceu ainda quando estava a estagiar e este é o primeiro ano como treinadora, está a ser o primeiro contacto como responsável. Sendo treinadora principal, é completamente diferente das épocas passadas, porque tenho também adjuntos e estagiários para auxiliar”, sublinha Joana, que este mês de junho andará também pelas praias, dado que é nadadora salvadora. “Grande parte das jogadoras estão no primeiro ano e o principal é fazer com que gostem de jogar futebol, porque muitas aparecem e nunca jogaram. Essa é a minha primeira preocupação”, refere. Da experiência como jogadora, saem-lhe outras dicas. “Jogo com elas também muitas das vezes e tenho um papel de capitã e ao nível da comunicação”, conta.

Joana Martins, treinadora principal, assume muitas vezes o papel de capitã (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Filipa Alves, “Pipa”, de 14 anos, não pode treinar. Está sentada no banco, amparada por muletas. Ana Teixeira confidencia-nos que chegou à Academia como avançada, mas já se converteu numa defesa. “Tem sido ótimo. Espero ser jogadora de futebol e fazer carreira”, diz, tímida, deixando transparecer um sorriso, ao falar das fintas que faz aos rapazes na escola.

A mãe jogadora ao lado da filha

Do lado oposto do campo, Marta vai-se equipando. O treino está quase a começar para as seniores e a filha mais velha, Leonor, de sete anos, ainda está em ação. “Já joguei futsal, há muito tempo, e surgiu a oportunidade de praticar futebol na Academia. A minha filha treina antes de mim e depois do treino a rotina diária continua”, diz Marta. “O balanço é muito positivo, não só pelo futebol, como na prática desportiva, que é o que nos faz bem. Nós, como seniores, mães, trabalhamos, temos as tarefas domésticas… Vir aqui é um escape e alia-se futebol ao prazer de praticar desporto”, vinca. A filha mais nova, de três anos, só aguarda a abertura de escalão para se juntar…

Marta com a filha Leonor, juntas na Academia (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

“Felizmente, elas preferem a prática desportiva e brincar na rua, em vez de casa. Acompanham-nos para todo o lado para ver os jogos e fazer tudo.”

No combate ao défice de formação em Portugal

Com o crescimento sustentado em mente, Ana Teixeira sabe que há um défice de formação em Portugal. “É uma lacuna, principalmente porque os clubes não dão as mesmas condições ao feminino e esperam bons resultados. Não há milagres. As raparigas têm de ter oferta de equipas femininas ao pé de casa, para que esse fator não constitua desde logo uma barreira à própria deslocação. Têm de ter condições adequadas às suas idades, para que miúdas de 12 anos não cheguem a casa às 21h00”, defende.

O acesso a treinadores qualificados e cientes dos contextos onde estão inseridos, bem como a aplicação e planeamento de acordo com objetivos concretos, mensuráveis e adequados ao grupo e ao seu desenvolvimento, é outro aspeto a ter em conta para Ana Teixeira. “Só assim e acontecendo a nível nacional, é que vamos poder crescer para fazermos parte das melhores seleções do mundo, dos melhores campeonatos do mundo. Temos de triplicar o número de atletas inscritas em competições e em escolas de formação nos próximos anos e depois começar a trabalhar a quantidade. Mas é importante haver essa quantidade para ser trabalhada”, completa. Todavia, Ana destaca a “evolução notória” nos últimos três anos. “Os clubes mostram interesse no futebol feminino, há mais oferta, começam a criar-se departamentos de futebol feminino que procuram as condições que referi e também adequar o contexto às miúdas, e é também por isso que o Futebol Feminino em Portugal teve um crescimento brutal. O caminho é este, apesar de ainda faltar muito!”, reforça.

(Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Esta é ainda a altura da I edição dos campos de férias desportivos da Academia de Futebol Feminino de Oeiras.

(Fotos: Filipe Amorim / Lado F)

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