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“O futebol é uma parte maravilhosa da nossa vida, mas não é tudo”

Articulada, esclarecida, sem meias-palavras, firme nas convicções. Foi assim que Rita Fontemanha "recebeu" o Lado F, ciente da importância de ter a mentalidade certa e um plano B, para lá de uma carreira que acaba cedo

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Profissional da cabeça aos pés, Rita Fontemanha, centrocampista de 27 anos do Sporting que jogou duas épocas no At. Madrid, fala com conhecimento de causa da evolução do futebol português e traça o comparativo com o espanhol; fala da importância da aposta na formação para a evolução “notória” registada nos últimos anos, da luta pelo título, da competitividade interna e externa, mas vinca o mais importante: a carreira é curta, há mais na vida e o futuro constrói-se hoje.

Foi sendo lançada ao longo de vários jogos, depois foi titular, marcou, voltou a não sair do banco: como está a ser este momento?

Está a ser bom… Obviamente, é que jogar é sempre bom, ser titular e fazer os 90’ é sempre bom, mas eu tenho vindo a trabalhar sempre da mesma maneira, jogue mais ou jogue menos. Portanto, acredito que quando se trabalha assim, com esta consistência, as coisas vão acabar por acontecer, com naturalidade. Procuro desfrutar, mas sempre com os pés bem assentes na terra, sempre nessa linha de continuar a trabalhar, ser consistente e aprender para evoluir.

Tem jogado como médio – isso tem alguma relação com a mudança de número, do 3 para o 8?

Não (risos)… curiosamente, não se prende com a mudança de número. Era médio, até ir para Espanha, sempre fui, a seis ou a oito. No entanto, quando fui para Espanha, fui adaptada a lateral-direito e quando cheguei ao Sporting também houve essa necessidade de me manter nessa posição, fruto também das jogadoras que tínhamos no plantel. O meu primeiro propósito é sempre servir a equipa, mas no meio é onde me sinto mais confortável.

Rita esteve dois anos no Atlético Madrid

Aproveitando a boleia: como foi essa experiência em Espanha, no Atlético Madrid?

Foi uma experiência fantástica. Foi uma das melhores oportunidades e experiências que eu tive, porque completamente distinta: estar fora, a viver fora, ainda era nova, completamente sozinha, num campeonato diferente, língua diferente, tudo diferente, mas muito enriquecedora. Foram dois anos difíceis, em alguns momentos, mas por outro lado, foi uma oportunidade que não mudaria rigorosamente nada.

Que grandes diferenças há entre o futebol feminino português e espanhol – ou havia, na altura?

Para começar, existem ainda muitas diferenças. Mas naquela altura, notavam-se ainda mais, porque o futebol feminino português ainda não estava muito evoluído, mas a grande diferença era a intensidade, de treino e de jogo. Foi passar do oito para o oitenta. Elas treinavam mesmo no máximo, eram jogadoras com muita qualidade, o campeonato em si tem muita qualidade, há muita competitividade. Todos os jogos, fosse contra o primeiro ou contra o último classificado, eram bastante intensos, o nível do campeonato estava bastante acima. Depois, havia a forma como elas se dedicavam ao treino: na altura, em Portugal, ainda não tínhamos equipas profissionais, não tínhamos esta ambição das jovens em chegar a equipas de topo, era tudo visto quase como um “hobby”; lá, não. Independentemente do clube em que estivessem era tudo feito de forma bastante profissional e elas próprias encaravam, desde miúdas, o futebol dessa maneira. Isso fazia toda a diferença em termos de entrega ao que acontecia em Portugal.

“[Ida para Espanha] Foi passar do oito para o oitenta. Mas houve uma mudança abismal, a competitividade aumentou e a qualidade também”

E isso entretanto mudou em Portugal, nestes cinco seis anos?

Sem dúvida. Mas é uma mudança abismal. É absurdo. Hoje em dia, temos condições ao nível das que eu encontrei lá, em Madrid. A competitividade aumentou, a qualidade das atletas também tem vindo a aumentar, fruto do facto de termos muito mais praticantes, de termos escalões de formação – e isso faz toda a diferença -, começa a haver muita qualidade. E a forma também como nós encaramos o treino e o jogo é completamente distinta, também.

Confirma, então, uma grande evolução no futebol feminino português, nos últimos anos?

Sim, é notória. Não só nos resultados que tem tido a nossa Seleção, que acaba por ser um pouco o espelho da evolução do futebol feminino em Portugal, mas olhando para o número de praticantes que há hoje em dia. Acho que isso também não se conseguia se não apostássemos muito naquilo que é o processo de formação, a entrada dos clubes grandes, que teve aqui um papel muito importante para dar mais visibilidade ao futebol feminino em Portugal, portanto acho que a evolução é notória. Está aí estampada. Os próprios meios de comunicação social têm vindo a interessar-se mais pelo futebol feminino, pela qualidade que tem vindo a apresentar, por uma maior competitividade e pelos bons resultados que vão surgindo, com alguma naturalidade.

É no meio que se sente mais confortável, mas aí têm jogado a Andreia Jacinto, a Fátima Pinto, a Tatiana Pinto mais regularmente: é concorrência de peso…

Sim, concorrência e competitividade e ainda bem que assim o é. Porque acho que é dessa forma que nós crescemos. É com competitividade, seja interna, seja no campeonato, portanto ainda bem que as tenho na minha equipa, porque isso faz de mim melhor jogadora em todos os momentos. Quer jogue mais, quer jogue menos, porque se jogar menos, é porque há alguém que está em melhor momento de forma e isso leva sempre a exigir mais de mim, daí que essa competitividade seja muito positiva.

Andreia Jacinto não surpreende Rita Fontemanha pela sua qualidade

Este ano, a grande surpresa tem sido a afirmação da Andreia Jacinto na equipa principal: como tem visto esse processo?

Sinceramente, para mim, não é uma surpresa. Isto porque acompanho a Andreia desde muito cedo. Quando eu cheguei ao Sporting, a Andreia entrou também para os escalões de formação, entrámos no início do projeto, e notava-se já que a Andreia era uma atleta distinta. Pela maturidade que demonstra – tem 18 anos, mas em campo parece que tem muito mais -, por ter acompanhado sempre a sua formação e por, em determinados momentos, ter chegado a jogar com elas, percebi que a Andreia tinha um futuro incrível pela frente. Já achava que a Andreia tinha qualidade para jogar neste patamar.

A Andreia será o caso mais gritante, pela juventude e pela afirmação no onze, mas há outras jogadoras a surgir, como a Alícia Correia, a Mariana Rosa ou a Marta Ferreira, entre outras. É importante a aposta na formação?

É chave. Nota-se a qualidade com que as jovens da formação chegam ao plantel sénior, com uma maior cultura tática e técnica e é fundamental para Portugal conseguir crescer e ter mais atletas com mais competitividade, porque acho que as jogadoras como a Andreia a Alícia e as outras apresentam-se já com um nível de maturidade e competitividade alto, o que significa que, se apresentam tanta qualidade aos 18 anos, têm ainda uma margem de progressão gigante! Por isso, acredito que, com estas gerações que estão a surgir, com a qualidade que têm, e terem a formação em clubes que lhes dão as oportunidades que estão a ter, como o Sporting, Portugal vai chegar a um patamar acima daquele em que está no dia de hoje.

Rita Fontemanha marcou no triunfo por 3-0 sobre o Torreense (Foto: Sporting CP)

O golo marcado ao Torreense teve algum significado especial, alguma carga particular?

Não, todos os golos têm um significado especial. É óbvio que o golo é sempre um momento de euforia, mas não é pelo golo que eu trabalho, é por oportunidades, por crescer, evoluir. As coisas vão acontecendo com naturalidade. Fico feliz por ter essa clarividência para poder chegar ao golo, porque demonstra que essa persistência e a mentalidade com que encaro as coisas dá os seus frutos.

É esse um fator determinante na carreira: a mentalidade com que encara mesmo os momentos menos bons?

É o fator-chave. É a mentalidade com que encaro todos os desafios, seja nos momentos em que estou melhor e jogo mais, seja naqueles em que não jogo tanto, porque acho que tem feito toda a a diferença. Fico feliz por ter essa capacidade e ter vindo a crescer, ao longo dos anos, também a esse nível, porque julgo que tem feito toda a diferença e espero continuar a encarar as coisas dessa maneira.

O Sporting segue invicto na Liga BPI, já venceu por duas vezes o Benfica esta época, tem a liderança ao alcance com o acerto do calendário: pode ser visto como o principal candidato ao título?

Acho que não se pode falar de principal candidato, porque a diferença é muito, muito, muito curta. Todas nós estamos em posição para conquistar o campeonato. O nosso foco está em mantermos o nosso rendimento que temos tido. Não tem propriamente a ver com o “invicto”, mas trabalhar diariamente e chegarmos a cada jogo na nossa melhor forma. Fortes defensivamente, que tem sido uma característica nossa, para depois estarmos mais próximas de, ofensivamente, criarmos boas situações para vencermos os jogos. A competitividade aumentou de tal forma e este ano está tudo tão renhido, que qualquer jogo pode dar para a vitória, para a derrota ou para o empate. Portanto, o nosso foco está mesmo em chegar ao dia do jogo na melhor forma, pois só assim vamos chegar ao fim do campeonato e sermos felizes.

“Há uma maior preocupação de trabalhar connosco todos os momentos de jogo, para que possamos ser mais competentes em cada um deles”

Ao longo da carreira já teve vários treinadores. No Sporting, por exemplo, já teve Nuno Cristóvão e, agora, Susana Cova. Que diferenças de métodos, estilos e conceções se podem detetar?

Eu acho que cada treinador tem a sua forma de treinar, de estar, de se dar ao plantel. É óbvio que são pessoas diferentes, o professor Nuno era uma pessoa mais velha, que estava há mais anos no futebol feminino, e é natural que os métodos de treino de pessoas assim, mais velhas, há mais anos no futebol, são diferentes de pessoas que terminaram os cursos há menos tempo, que se vão mantendo a par daquilo que é a evolução do futebol. A professora é um pouco mais minuciosa naquilo que são os microciclos, o controlo da carga de treino… Nesse aspeto, há algumas diferenças e uma maior preocupação de trabalhar connosco todos os momentos do jogo, para que nós possamos ser mais competentes em cada um deles.

Como é a Rita extra-futebol?

A Rita extra-futebol tem, felizmente, muitas outras coisas em que pensar. Estou a estudar, estou a tirar um curso, e isso é importante para mim que esta vida extra-futebol seja preenchida, porque o futebol é uma parte maravilhosa da nossa vida, mas não é tudo. Acho que é importante que as jogadoras e os jogadores estejam cientes disso. É importante que nos possamos distrair, aproveitar, ter um plano B, um plano extra, porque acho que as coisas assim, até com mais naturalidade, vão surgindo e vão acontecendo.

Que curso está a tirar?

Exercício e Bem Estar, na Universidade Lusófona.

Isso enquadra-se já num plano pós-carreira?

Sim, sem dúvida.

Porque é uma situação de que não se fala muito, o pós-carreira…

É verdade, é uma situação de que não se fala muito, mas que deveria ser mais falada. Não que as jogadoras tenham que pensar quando é que vão terminar a carreira, porque acho que isso são coisas que surgem no momento. Não tem que ser: “Quero terminar aos 30 ou aos 35”. Não há coisas que vão surgindo e mesmo a forma como o nosso corpo vai respondendo, acho que é a forma mais fácil de nos apercebermos quando é que está perto do final. Mas acho que é importante nós pensarmos no pós-carreira, até porque a carreira do futebolista termina cedo. E se nós aos 34, 35, 36 terminamos o futebol, há tanta coisa ainda pela frente para fazer… Temos é que encontrar aquilo de que nós gostamos, com o que nos identificamos e também fazer um pouco por isso, não quer dizer que o curso tenha que se terminar aos 21, 22 anos – eu própria tenho 27 e estou ainda a terminar o curso. Podemos ir atrás de outras oportunidades, jogar por fora e ao fim do dia ter esse equilíbrio para ter a capacidade de ter esse plano B. porque vai frutos no futuro. Vamos poder terminar a carreira tranquilas, e pensar: “Ok, agora começa uma nova etapa na nossa vida.” E podemos dedicar-nos a outra paixão ou outra coisa com que nos identifiquemos e, a partir daí, um mundo de novas oportunidades surge.

“Com a capacidade de ter um plano B, vamos poder terminar a carreira tranquilas e pensar: ‘Ok, agora começa uma nova etapa na nossa vida’. E um mundo de novas oportunidades surge”

E é sempre possível conciliar as duas coisas, futebol e formação académica?

É possível. Naturalmente, dependendo do nível a que estejamos a jogar, seja amador ou profissional, pode haver momentos mais complicados, em que é preciso faltar a algumas aulas, ou estudar um bocadinho menos. Mas, ainda assim, é mais do conciliável. Se não for possível fazer em três, faz-se em quatro ou em cinco. Mas importa manter essa parte cognitiva também ativa.

Rita Fontemanha com Mónica Mendes na Seleção – (re)encontraram-se no Sporting

(Montagem vídeo: Filipe Amorim / Lado F)

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