“O maior desafio é utópico: dar dignidade e estabilidade à vida de todos e exigirá corações desinteressados”

Maria João Matos tem 22 anos, é médio do Futebol Benfica e estudante de Medicina, em Lisboa, curso que a obrigou a deixar as raízes, pois é natural de Santo Tirso. No final de um ano que mudou as vidas de todos nós, conversámos com a jovem jogadora sobre a forma como tem encarado a pandemia e os desafios futuros no futebol e fora das quatro linhas. Maria João está no terceiro ano da licenciatura e imagina-se realizada na área da psiquiatra, pediatria, ou até pedopsiquiatria.

“Em maior ou menor escala, a pandemia chegou a todos com contornos semelhantes e isto mostra o quão igualmente frágil somos. Para mim foi desestabilizador: a certo ponto deixei de treinar e de jogar, além do convívio que isso implica; a minha formação prática e intervenção direta com o paciente foi suspensa. O prazer que é estar presente na vida das minhas pessoas, quer no Porto quer em Lisboa, teve que assumir uma forma mais digital, que não é a que privilegio. No fundo, tudo o que era a minha rotina diária teve que se reinventar, e eu própria, naturalmente. Agora, o meu dia-a-dia está mais próximo do normal, apesar de todos os cuidados e comove-me o quão rápido nos conseguimos adaptar para ser possível experimentar uma ponta de normalidade”, começa por dizer.

“Comove-me o quão rápido nos conseguimos adaptar para ser possível experimentar uma ponta de normalidade”

Maria João Matos deixa-nos uma profunda reflexão sobre o momento atual.

“Apesar de nos parecer uma eternidade, tudo isto é muito recente e quando nos foi exigido trabalhar, estudar, conviver e viver de maneira absurdamente diferente, e, com mais ou menos dificuldade, soubemos dar resposta e isto faz-me olhar para o que aí vem com medo e respeito, claro, mas também com esperança. Acredito muito na capacidade de adaptação das pessoas, e principalmente na solidariedade que, a meu ver, vai ser essencial nos próximos tempos. Mesmo com vacina, parece-me que um ano desta pandemia deixou cicatrizes que vão exigir tempo e perseverança. Além das pessoas que foram diretamente afetadas, penso na crise económica que está para chegar”, sublinha a médio, acrescentando que “o maior desafio nos próximos tempos é utópico: é dar dignidade e estabilidade à vida de todos e acho que vai exigir olhos atentos e corações desinteressados para chegarmos perto, pelo menos”.

“Mesmo com vacina, parece-me que um ano desta pandemia deixou cicatrizes que vão exigir tempo e perseverança. Além das pessoas que foram diretamente afetadas, penso na crise económica que está para chegar”

“E gostava que não nos esquecêssemos de tudo o que desejámos quando não pudemos ter. Se as nossas prioridades forem ajustadas, este ano terá sido menos mau, caso contrário, caso voltemos ao conforto do privilégio, tudo isto terá sido nada mais que um massacre”, explica.

Quando a pandemia chegou a Portugal, em conjunto com outros amigos, Maria João Matos esteve inserida no projeto voluntário “posso.pt”, um site que nasceu da sensibilidade de um grupo de amigos, uma deles a irmã Bárbara Matos. “Todos acharam necessário e possível trocar por miúdos todas as informações, conceitos e diretrizes que nos bombardeavam na primeira vaga da pandemia, quando tudo era novo e confuso. O objetivo era tornar questões de saúde, económicas ou quotidianas claras e acessíveis a todos, recorrendo sempre a fontes oficiais. O meu papel passou por dar resposta às questões ligadas à saúde, simplificando o que nos chegava da DGS ou da OMS. Foi um projeto que cumpriu muito bem o seu propósito, que foi útil e que cresceu muito bem, a ponto tal, que os recursos deixaram de ser suficientes e que por isso está pausado neste momento. Até porque as pessoas já estão mais ambientadas e esclarecidas”, justifica.

Maria João Matos parece levar a melhor sobre a leoa Andreia Jacinto (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Com um discurso assertivo, Maria João concilia, como tantas outras atletas, a profissão ou os estudos com o futebol e já teve de faltar a treinos, principalmente em épocas de avaliações. “Mas o futebol, entenda-se tudo desde a convivência com o balneário até à competição em si, dá-me vitalidade e até mais disponibilidade para que os momentos de estudo sejam eficazes. E obriga-me a uma gestão de tempo: normalmente, quando tenho mais tempo livre, sou menos produtiva. O futebol não me atrapalha, pelo contrário, é-me necessário”, diz Maria João, sempre ligada ao desporto, como nos dá conta.

“O futebol não me atrapalha, pelo contrário, é-me necessário”

“Felizmente, os meus pais sempre me deram asas: estudei música muitos anos, fiz karaté – kata e kumite – e outros desportos sempre estiveram presentes na minha vida. Quanto ao futebol, é uma paixão desde sempre. Sempre vivi e senti muito o jogo e isto vem do meu pai [Fernando], que deixou que o acompanhasse, quer como jogador, quer como treinador, e que me ensinou muito do que é estar dentro de algo tão grande. É um orgulho para os dois, acho, eu ser feliz a viver futebol”, sintetiza.

Maria João estudou música e praticou karaté

“Quando olho para o bolo todo, o futebol não é prioritário, nem sequer secundário, mas quando o vejo de perto, ou de dentro, é imersivo. Mais que prioritário, é único. E para mim, essa é a beleza do futebol, é a resposta ao ‘porquê o futebol?’. É uma paixão que já há muito se tornou amor, sem deixar de ser paixão. E já lá vão 20 anos”, declara, com convicção.

Maria João Matos em disputa de bola com Raquel Fernandes (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Falando concretamente do Futebol Benfica, Maria João Matos aborda os cuidados que têm sido mantidos entre o grupo. “O nosso balneário é composto por mulheres com profissões e responsabilidades diferentes, que se juntam ao final do dia para serem o mais profissionais possíveis, num desporto que é um gosto comum, por isso, claro que todas estamos expostas ao vírus, mas tenho a certeza que todas tomamos as devidas precauções, assim como o clube: os espaços de entrada e de saída estão sinalizados, existem vários pontos de desinfeção das mãos, é medida a temperatura a toda a gente que entra”, evidencia, referindo algo que o Lado F já constatou esta temporada: “Já por duas vezes o grupo foi testado e todos testámos negativo, é um sítio onde me sinto confortável e segura”, completa, sem passar ao lado da época aquém das expetativas nesta primeira fase, em que o Fofó ficou arredado do top-4 e lutará pela permanência.

“O nosso balneário é composto por mulheres com profissões e responsabilidades diferentes que se juntam ao final do dia para serem o mais profissionais possíveis”

“O Fofó é um histórico do futebol feminino em Portugal, é indiscutível, e as pessoas dentro ou próximas do meio olham para o clube como um grande, e bem. Encaramos esta época, desde o início, com este princípio e querendo estar dentro do top-4 neste novo, e questionável, formato do campeonato. Vivemos um mau ciclo de resultados que nos afastaram desse objetivo, mas que não abalaram a nossa convicção, e prova disso são muitas das exibições que já fizemos com imensa competência, mesmo sem resultados favoráveis. Os números são determinantes e ditam as classificações, mas não contam a história toda e nós, fazendo uma análise completa, temos muita confiança no que estamos a fazer e no que temos para dar”, afiança.

“Não escolheria outro grupo ou equipa para dar a volta a um momento destes, e os resultados vão aparecer para fazer justiça ao nosso trabalho”, conclui a jogadora que na última partida do ano, iniciou de forma sublime a jogada do segundo golo do Fofó ante o A-dos-Francos.

Imagem principal cedida por Maria João Matos

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