O risco do vazio

O Lado F nasceu a 1 de setembro – foi concebido antes, naturalmente, mas conheceu a luz do dia há pouco mais de oito meses. O que nos tem movido desde o início, dia após dia, todos os dias, com o compromisso de profissionais experimentados com provas dadas ao longo dos anos, foi dar a conhecer esse lado que continua descurado, esquecido, tantas vezes ignorado: o desporto feminino.

Deparámo-nos, como as atletas que têm a coragem de o ser, num meio em que a disparidade é um eufemismo, tamanho o fosso que separa dois mundos desiguais – desde apoios e incentivos a condições e visibilidade, passando por dinâmicas congregadoras e, no fundo, aceitação social – com aquela que é, em suma, a realidade que nos propusemos combater e inverter ao desbravar caminho para arcar com este projeto.

Fomos confrontados ainda com uma constatação agravada pelos tempos de pandemia, confinamento e constrangimento social e, por inerência, comercial e financeiro: o desporto feminino, por maior profissionalismo com que seja encarado e alto rendimento que apresente, é ainda encarado, maioritariamente, como pouco menos que uma aberração, algo que é tolerado na medida do possível, desde que fique no seu canto e não incomode muito. E isso, ao contrário do que julgávamos, com repercussões notórias ao nível do mercado que, obstinadamente indiferente ao crescimento e desenvolvimento do desporto feminino em Portugal, nas mais variadas vertentes, continua a ignorar o potencial emergente inerente ao crescente número de atletas, adeptos/as e seguidores/as das diversas modalidades femininas – do futebol, mas não só, de todas as outras.

Da forma mais pragmática possível, há que dizê-lo: o nosso compromisso, fito, propósito e espírito de missão mantêm-se inabaláveis, o de divulgar, promover e ajudar a esbater as diferenças no tratamento de género ainda gritantemente notórias no nosso país, em moldes – profissionais – que ainda não tinham sido experimentados. Ousámos, acreditámos e avançámos. Mas a discrepância no que toca a apoios entre o desporto masculino e feminino é, como sabido, incomensurável.

Seguimos, sem temores, firmes. Mas é bom que haja a consciência, entre todos os agentes no desporto feminino, de atletas, treinadores/as, clubes, associações, federações e até empresários, que o nosso papel de dar protagonismo, visibilidade e reconhecimento a quem o merece não se esgota nesse espírito de missão de que estamos imbuídos – como algumas das nossas interlocutoras, de resto, já fizeram questão de frisar.

Sem desprimor para qualquer dos projetos anteriores, entretanto criados ou retomados desde a criação do Lado F: surgimos para ocupar um espaço inexistente no panorama informativo em Portugal – um OCS inteiramente dedicado ao desporto feminino. Sem os devidos apoios e incentivos, é esse o risco que se corre: voltar a antes de 1 de setembro e ao… vazio. Mas como dizia “alguém” – com letra maiúscula, Jorge Palma -, “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”.

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