“Quero jogar um Grand Slam e acabar a época no top-250”

Dominadora no panorama nacional – tetracampeã absoluta, após dominar todos os escalões juvenis -, Francisca Jorge, 21 anos, é a mais cotada tenista portuguesa da atualidade. Natural de Guimarães, Kika – “quando me chamam Francisca, às vezes nem reajo” – conversou com o Lado F e deu-se a conhecer.

Com três anos, iniciou-se na natação e aos sete, acabou por praticar ténis, por desejo dos pais. Nunca pensaram que Kika chegasse onde já chegou, mas o bichinho manteve-se e a tenista optou por esta modalidade aos 14 anos, em detrimento da natação. Hoje, no CAR do Jamor, é acompanhada em maior permanência pelo técnico Vasco Antunes, mas a boa relação estende-se a toda a equipa.

Que papel teve Joaquim Ferreira da Costa na sua formação no ténis?

O Ferreira foi uma pessoa bastante presente na minha vida, desde os sete anos. Na altura, já era veterano e as pessoas brincavam que era quase como um avô. Mesmo na família dele, sempre fui muito acarinhada. No CT Guimarães queriam o meu sucesso e ainda têm carinho por mim e dão-me força. O meu começo foi com o Ferreira e dos 7 aos quase 17, quando vim para o CAR, estive com ele. A minha carreira júnior foi com ele e mesmo no início nos torneios WTA, foi alguém que me encaminhou neste percurso. Fui muito feliz com ele e ainda mostra o seu apoio.

Como foi a transição para o CAR?

Já estou muito mais adaptada e a minha transição não foi tão drástica como de outras tenistas ainda mais novas que eu. Mudei com 17 anos e foi difícil porque sou bastante chegada à minha família e sempre fui protegida pela minha família.

Sentiu que era um passo necessário, em prol da evolução?

Sim. Foi uma decisão que tive de tomar e não me arrependo, mas claro que no início senti falta de não tomar o pequeno almoço com a minha família. E a minha mãe é professora. Eu e a minha irmã sempre tivemos a sorte de que nos levasse à escola, porque não faria sentido de outra forma. Estava em aulas, mas durante os intervalos via a minha mãe. Senti essa ausência e da minha irmã, porque eu e a Matilde temos uma relação muito boa. Agora, ela voltou para cá, como estamos em fases diferentes da carreira, estamos bastantes semanas separadas.

Qual a maior ambição? Até onde pode chegar?

O próximo objetivo é jogar um Grand Slam, já seria um grande feito atingir esse nível. Ser profissional é conseguir viver do ténis e gostava de um dia sentir que posso pagar as minhas despesas através do ténis. Estou a arriscar-me e a fazer tudo para concretizar esse objetivo.

Tem preferência em termos de superfície?

Eu quero estar num Grand Slam, mas gostava de acabar a época no top-250. Com esses pontos, um Open da Austrália, não diria, porque é o primeiro do ano e é mais dispendioso. Por isso, não seria um bom investimento. Prefiro piso rápido, por isso diria US Open, mas é o último do ano. Roland Garros em 2022 é uma ambição alta, mas não impossível. É acreditar e trabalhar para isso. Gostava muito de participar em Roland Garros no próximo ano.

Em termos de ranking, a médio prazo, top-100 é pensar demasiado alto?

Gostava de ser mais crente nas minhas capacidades. Sinto-me a jogar bem e a evoluir, mas ainda me retraio um bocadinho na ambição. Por vezes, o medo é superior ao querer e à ambição. Estou a melhorar nesse aspeto e cada vez mais estou mais confiante, mas um top-300 este ano é possível. Top-250 já é uma aposta mais arriscada, mas também possível. Se o conseguir no final do ano ou início de 2022, posso dizer que se mantiver a minha consistência e jogando torneios melhores, poderá ser possível ficar perto do top-100. Mas não vejo os rankings com muita frequência… É ganhar jogos, estar a 100 por cento, ser consistente e depois tudo acaba por acontecer. Vem por acréscimo.

João Sousa também começou no CT Guimarães e tem hoje projeção internacional. Num olhar global, qual a justificação para que isso não aconteça no feminino, em termos nacionais?

Primeiro, há menos raparigas do que rapazes a praticar este desporto e vê-se em qualquer desporto. Se nos últimos 20/30 anos houve 4/5 raparigas a singrar – Michelle, Maria João Koehler, , Neuza Silva, Bárbara Luz, Sofia Prazeres… – de forma desfasada, com maior intervalo de anos, nos rapazes houve sempre um nome presente. De ano para ano, aparecem mais, que se juntam aos nomes já conhecidos. Só por isso, o ténis masculino chama muito mais à atenção. As raparigas acabam por não acreditar muito que é possível singrar, porque não têm tantos exemplos como no masculino. Outro aspeto é que ali aos 17/18, quando se tem de tomar uma decisão se querem o ténis mais a sério, na verdade, também não há muita ajuda no sentido de se conciliar os estudos com o desporto e o que acontece é ir para os Estados Unidos, uma situação mais prática, porque se consegue tirar um curso e competir. Por tanta gente ter seguido esse caminho, muita gente foge a enfrentar a realidade dura. No meu caso, convenci os meus pais que era isto que queria. É chato ouvir que não há muitas raparigas a quererem seguir o caminho do profissionalismo.

O que se segue em termos de provas?

Na próxima semana, tenho um torneio em Montemor-o-Novo, depois na Figueira da Foz e outro no Porto.

Está a estudar?

Estou a cem por cento no ténis. Quando vim para Lisboa, tinha o 12.º ano pendente e acabei-o em ensino noturno, depois dos treinos. Vim para Lisboa para ser profissional do ténis e não estava preocupada em arranjar universidade, mas fiz os exames nacionais e inscrevi-me na FADEUP, porque era mais perto de casa e em Lisboa será só para ténis. Não me vejo a estar numa secretária das 9h00 às 17h00. Tenho de estar ligada a Desporto. A geração dos meus pais e tias foram das primeiras a licenciarem-se e para vir para o CAR ficou claro que teria de acabar o 12.º ano.

Quais os hóbis preferidos?

A vida não é só ténis. Não se pode estar 24 horas a pensar na modalidade, seja ela qual for, ou no trabalho. Não é um hóbi, mas estar com a família faz-me desligar para depois voltar a trabalhar ainda mais. Gosto muito de tirar fotografias e fazer vídeos. Tenho uma máquina, além do telemóvel. E por vezes apanho as pessoas desprevenidas. Estou interessada em ver de que forma posso captar melhores momentos nas fotos. Gosto de ver filmes e praia. O mar ajuda-me a limpar tudo. Também já experimentei surf e adorei.

Fotos: Sara Falcão – tiradas no Complexo de Ténis do Jamor nos torneios da FPT

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