“Ser profissional é difícil, mas estudei, investi e continuarei a fazê-lo por esse objetivo”

Tem 28 anos, é uma das treinadoras da nova geração e continua a investir na sua formação, mesmo que esteja sem clube desde que deixou a equipa técnica do Sporting no final da última temporada, onde era adjunta. Apaixonada pelo futebol, Joana Tilly continua a acompanhar os campeonatos de perto. A par da vertente académica – tem uma licenciatura em Ciências do Desporto e mestrado em Treino Desportivo na Faculdade de Motricidade Humana e é licenciada em Gestão -, concluiu há pouco tempo o curso UEFA A, “um marco importante” no seu desenvolvimento enquanto treinadora e “um grande objetivo conquistado, bem como uma experiência incrível”. “Pude conviver com colegas de turma e professores excelentes durante cinco semanas de internato, com aulas desde manhã cedo até à hora de jantar, em que me pude dedicar exclusivamente ao curso, a absorver as inúmeras aprendizagens e troca de experiências com colegas que são treinadores com currículos invejáveis e acima de tudo pessoas muito humildes e com imensa vontade de partilhar e aprender”, conta. No seu grupo de trabalho, estiveram Vasco Faísca, Milene Ramos, a outra mulher do curso, e Hélder Pereira. Depois, foi com Luís Loureiro que fez o microciclo de observação para o relatório final no Real Massamá, mas para Joana Tilly “todo o grupo era incrível”, assim como a experiência vivida.

Apostou na sua formação profissional. Que papel atribui à mesma?

Considero que a aposta na formação contínua, a troca de ideias e experiências são determinantes para nos podermos atualizar constantemente enquanto treinadores e, para isso, sermos capazes de nos adaptar cada vez melhor aos diferentes contextos. Pessoalmente aposto muito na minha formação porque quero estar o melhor possível preparada para as oportunidades que possam surgir.

Conte-nos o seu percurso, motivo pelo qual vai parar ao futebol? Seguiu tradição familiar?

Cresci em Seia, uma cidade no interior do país, com pouca oferta desportiva. Em jovem pratiquei vários desportos, tendo sido o atletismo a modalidade à qual me dediquei com mais afinco e por mais tempo. Sempre gostei muito de ver e jogar futebol, ainda que só tivesse oportunidade de o fazer na rua ou no recreio da escola, uma vez que infelizmente não havia nenhum clube com equipa feminina na minha cidade. Apenas numa fase mais avançada da minha adolescência foi criada equipa feminina no Seia Futebol Clube, o que fez com que começasse a jogar bastante tarde. Curiosamente, a ligação da minha família ao futebol não é muito forte, nem enquanto praticantes, nem tão pouco na perspetiva de adeptos. Foi uma paixão que nasceu solitária dentro de mim e que fui alimentando ao longo do tempo.

No CAC, Joana Tilly integrou a equipa técnica que levou o clube da Pontinha à subida de escalão (Foto arquivo pessoal)

Quanto tempo praticou e como se dá a transição para a carreira técnica?

Como referi, tive poucas oportunidades de praticar futebol, tendo jogado apenas algumas épocas no Seia Futebol Clube, no início da sua existência, e posteriormente numa curta passagem pelo Os Belenenses. Depois começou a surgir o gosto pela vertente do treino e acabei por optar por me dedicar exclusivamente à função de treinadora, cujo trajeto iniciou no Casa Pia Atlético Clube com o mister Rafael Santos enquanto estagiária primeiramente, aquando do meu terceiro ano de licenciatura em Ciências do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana. Fiquei no Casa Pia duas épocas e em seguida surgiu a grande oportunidade de ingressar na Academia Sporting, na mesma época em que aceito o convite para fazer parte da equipa técnica na equipa sénior feminina do CAC com o objetivo de subir à primeira divisão nacional, objetivo que alcançámos.

No Sporting, iniciou-se nas camadas jovens? Ficou quanto tempo?

O Sporting aparece no segundo ano de mestrado em Treino Desportivo, na Faculdade de Motricidade Humana. Havia uma possibilidade remota de abrirem vagas para estagiar na Academia Sporting e eu desde logo manifestei ao meu orientador de Estágio, professor Ricardo Duarte – pessoa determinante no meu percurso – a intenção de poder estar enquadrada numa das melhores academias de futebol do mundo. Esperei até à última e eis que o meu telefone tocou. Do outro lado estava Paulo Leitão, coordenador da formação, que foi quem me abriu as portas da Academia e me permitiu entrar num contexto privilegiado de aprendizagem e evolução enquanto treinadora. Comecei como estagiária nos sub-14 e fui permanecendo nesse escalão num total de quatro épocas como adjunta, tendo tido a honra de trabalhar e aprender com treinadores que são as minhas referências: Marco Santos, Emanuel Ferro, José João Gomes e equipas técnicas que nos foram acompanhando, repletas de excelentes profissionais, sendo muito deles amigos que levo para a vida.

“Treinar rapazes? Foi sempre super tranquilo mesmo para aqueles que era novidade ter uma treinadora, porque a partir do momento em que eles percecionam que a pessoa que está ali só tem a intenção de os ajudar e lhe reconhecem competência, então claro que aceitam independentemente do género ou qualquer outro aspeto que possa ser considerado”

Os rapazes aceitavam bem ser liderados por uma mulher?

Claro que sim. Trabalhei sempre com excelentes grupos de atletas, miúdos incríveis que agora vou tendo o orgulho de ver chegar cada vez mais a lugares de destaque. Foi sempre super tranquilo mesmo para aqueles que era novidade ter uma treinadora, porque a partir do momento em que eles percecionam que a pessoa que está ali só tem a intenção de os ajudar e lhe reconhecem competência, então claro que aceitam independentemente do género ou qualquer outro aspeto que possa ser considerado. E quando se tem uma liderança forte ao lado, é muito mais fácil. Tive a sorte de ter sempre grandes treinadores principais que me deram toda a autonomia e confiança, mas também responsabilidade, o que me fez crescer muito nestas quatro épocas.

Joana Tilly deixou o Sporting na final da época passada (Foto: Sporting CP)

E a transição para a equipa feminina?

A transição surge a partir do convite do diretor do futebol feminino da altura, Filipe Vedor, que hoje está na direção do pólo EUL. O Filipe já conhecia o meu trabalho na formação masculina e considerou que eu era a pessoa certa para enquadrar a nova estrutura técnica como treinadora adjunta, um voto de confiança pelo qual estarei sempre muito grata e que sempre tentei honrar. Sabia que era uma mudança grande, mas sentia-me muito preparada para a mesma até por também já ter tido oportunidade de trabalhar com o escalão sénior feminino e acompanhar com muita atenção as competições femininas em Portugal.

Foram duas épocas intensas, que simbolizaram a passagem a profissional, a poder desempenhar a tempo inteiro a minha função. Foi um período altamente desafiador do ponto de vista profissional, mas penso que o balanço só pode ser positivo na medida em que pude ser uma privilegiada a viver o seu objetivo – ser profissional no futebol – e pude estar inserida num contexto que me permitiu trabalhar com jogadoras e profissionais extremamente talentosos, mas sobretudo com pessoas incríveis.

Que memórias guarda?

O contacto com o plantel foi incrível, penso que consegui estabelecer uma boa relação com todas elas, aprendi muito com todas e quero acreditar que também lhes consegui ensinar alguma coisa. São pessoas a quem desejo sempre muito sucesso desportivo e pessoal e pelas quais irei sempre torcer.

Apesar das saídas esta época, conhece muitas jogadoras do Sporting. Surpreende-a este campeonato que têm feito sob nova liderança técnica?

Não me surpreende, uma vez que conheço bem as jogadoras que ficaram no clube e sei do que são capazes. Parece-me, vendo de fora, que fizeram um bom enquadramento dos novos elementos na equipa e fico muito feliz de as ver jogar com prazer e alegria. Mas, pela forma como as competições nacionais estão organizadas, penso que apenas a partir de agora poderemos vê-las – felizmente – a ser expostas a maior dificuldade, com maior frequência, o que é ótimo porque competitividade é sinónimo de crescimento e evolução.

“Atualmente, já não basta manter a competitividade e qualidade interna de época para época para obter os mesmos resultados, pois as equipas já vão sentindo na pele que as ‘fórmulas’ que resultaram em épocas anteriores começam a ser insuficientes no presente”

Do ponto de vista geral, que análise faz deste campeonato? Será uma luta a três pelo título? A quatro?

Creio que está a ser mais um ano de crescimento da vertente feminina. Houve um aumento ligeiro da competitividade pelo maior investimento de algumas equipas, mas que apenas se medirá nesta segunda fase, onde o filtro já foi aplicado e as melhores se vão poder defrontar. Ainda assim, alguns resultados desnivelados que possam surgir mesmo na fase de apuramento de campeão são reflexo do caminho que ainda há a percorrer. Acredito numa luta essencialmente ainda a três, com equipas com valores e dinâmicas interessantes a poderem intrometer-se ao retirar alguns pontos aos candidatos. E considero também que a aposta num crescimento sustentado e gradual de algumas equipas, mesmo as que estão envolvidas na fase de manutenção, faz com que as restantes tenham a necessidade de acompanhar. Atualmente, já não basta manter a competitividade e qualidade interna de época para época para obter os mesmos resultados, pois as equipas já vão sentindo na pele que as ‘fórmulas’ que resultaram em épocas anteriores começam a ser insuficientes no presente, o que faz com que todos se tentem superar e garantir melhores condições e métodos de trabalho para poder fazer face aos desafios atuais.

Joana Tilly com Andreia Jacinto, médio que considera ser a jogadora lusa com maior margem de progressão, a par de Kika Nazareth (Foto: Sporting CP)

Quem considera ser a jogadora com maior margem de progressão, em termos nacionais?

Correndo o risco de ser injusta com os restantes bons valores nacionais que se vão afirmando no nosso campeonato, se tiver que escolher destaco a Andreia Jacinto, do Sporting, com quem tive a oportunidade de trabalhar, e a Francisca Nazareth do Benfica que, apesar de apenas conhecer em contexto de jogo e não de treino, vai mostrando um talento incrível. Ambas já se têm afirmado como peças importantes não só nas suas equipas como também na seleção nacional. No entanto, felizmente há várias jogadoras que vão surgindo e somando minutos, muito devido à aposta dos clubes e treinadores na sua formação, e que vão mostrando que o futuro é risonho.

Tenciona estar no ativo na próxima época? Em Portugal? Estrangeiro? E se é um sonho ser treinadora principal?

Sim, tenciono regressar assim que surgir um projeto que me faça sentido, seja em Portugal ou no estrangeiro, como adjunta ou principal. Confesso que ao longo do meu trajeto nunca idealizei o momento em que me deveria tornar treinadora principal, mas sinto-me preparada e sei que quando surgir essa oportunidade irei encará-la com naturalidade. Mas acima de tudo sou treinadora de futebol e qualquer que seja a minha função irei sempre dar o melhor de mim.

“Tenciono regressar assim que surgir um projeto que me faça sentido, seja em Portugal ou no estrangeiro, como adjunta ou principal. Confesso que ao longo do meu trajeto nunca idealizei o momento em que me deveria tornar treinadora principal, mas sinto-me preparada”

Sente que ainda há preconceito em treinar uma equipa masculina? É algo que lhe agradaria?

Mesmo que se diga ou queira mostrar que não, é notório que há. E isso vê-se pelo número de mulheres que estão à frente de equipas masculinas ou até inseridas em equipas masculinas. E à medida que se avança no escalão, mais evidente se torna este aspeto. Penso que é um tema que infelizmente está longe de se dizimar e não apenas na mulher a treinar equipas masculinas mas sim na figura feminina incluída no mundo do futebol no geral. É notável a forma como já vemos alguns exemplos a surgir nos media de mulheres que se conseguem afirmar pela sua competência num mundo de homens, mas enquanto continuarem a ser notícia só nos relembram a todos que são isso mesmo – exceções à regra. Creio que este é um tema essencial que deve ser alvo de reflexão contínua por todas as entidades envolvidas no futebol. Eu sempre gostei muito de trabalhar com equipas de rapazes, mas acima de tudo sou, como disse, treinadora de futebol. Não sou treinadora de futebol feminino nem de futebol masculino porque, para mim, futebol é futebol e tem de ter – ou deveria ter – lugar para todos os que revelem competência para tal.

“Preconceito? Penso que é um tema que infelizmente está longe de se dizimar e não apenas na mulher a treinar equipas masculinas mas sim na figura feminina incluída no mundo do futebol no geral. Não sou treinadora de futebol feminino nem de futebol masculino porque, para mim, futebol é futebol e tem de ter – ou deveria ter – lugar para todos os que revelem competência para tal”

Que planos tem para a sua carreira?

O meu grande objetivo é o mesmo de sempre, desde que entrei neste mundo do futebol: ser profissional. Sei que é algo muito difícil, sobretudo no nosso país, mas que ambiciono e foi para isso que me preparei, estudei e investi ao longo de vários anos e irei continuar a fazer. Sei que infelizmente não há muitas oportunidades de o fazer cá em Portugal, mas quero acreditar que será possível. No entanto cá ou fora, o importante é o projeto e quando surgir um projeto com o qual me identifique, ao qual eu sinta que posso acrescentar algo e que me acrescente algo, irei sem dúvida abraçá-lo e estarei mais do que preparada para o mesmo.

(Foto: arquivo pessoal Joana Tilly)

Deixe um comentário!

Últimas NOTÍCIAS

Sisi deixa Famalicão e segue até à China

O Famalicão anunciou este sábado que perdeu Sisi. A jogadora que fez 12 jogos e marcou cinco golos pelas famalicenses desde o início da...

Duelo em repetição na Taça

Tem lugar este domingo, a partir das 13h00, novo duelo entre Benfica e Torreense, que se defrontaram sábado passado com triunfo das águias (0-2)...

Houve golaço de “Carocha” na estreia de Raquel Fernandes

A Taça de Portugal de futebol feminino avança para a terceira eliminatória, mas na passada quarta-feira disputou-se o duelo em atraso entre as equipas...

Eis algumas das protagonistas em foco

Concluída a segunda ronda da Liga BPI, com o Benfica-Braga disputado dia 19, aqui fica, mais uma vez, a escolha do Onze da Jornada,...

Ana Borges prolonga vínculo com o Sporting

Ana Borges, jogadora do Sporting, renovou o contrato com o emblema de Alvalade. A internacional portuguesa de 31 anos, que faz todo o corredor direito,...

Jéssica Silva oficial no Benfica até 2025: “Está a haver uma festa no Céu”

Depois dos percalços que levaram ao adiamento da sua apresentação na Luz, Jéssica Silva acabou mesmo por ser apresentada hoje como reforço do Benfica...