“Tenho a sorte de ser acompanhada por treinador e psicóloga que são as minhas âncoras”

Nome incontornável no bilhar nacional, Sara Rocha aborda a reinvenção em tempo de pandemia

Detentora de 31 títulos nacionais e cinco internacionais, Sara Rocha é um nome incontornável do bilhar nacional. Licenciada em Direito, passou pelo ballet, karaté, volei, basquetebol, ténis, tiro de pistola de ar comprimido, vela, dança de salão, danças latinas, até à modalidade de eleição. Trabalhou na área do notariado, iniciou o estágio em advocacia, mas decidiu abandonar a área e embarcar num projeto juntamente ao lado do irmão, escritor e ilustrador, de criação de uma Editora infantojuvenil, a Paleta de Letras, na qual trabalha há 10 anos como diretora comercial. Natural de Braga, Sara, 39 anos, que passou por Benfica e Académica, partilhou com o Lado F os projetos que tem, entre os quais um livro.

Como tem sido lidar com a pandemia?

Têm sido tempos complicados para toda a gente. Tento adaptar-me a esta nova realidade para não sentir de forma tão violenta as limitações que nos são impostas. A proximidade com as pessoas sempre foi algo importante na minha vida e por vezes um abraço pode dar-nos a energia e a alegria que precisamos para nos mantermos fortes. No entanto, mantenho-me ativa tanto a nível de trabalho, como de novas iniciativas e de treino de bilhar. Tento delinear objetivos, planear os meus dias e manter o contacto com as pessoas que me são próximas, ainda que por vezes apenas online. Quanto à competição, a Federação Portuguesa de Bilhar cancelou e suspendeu todas as competições federativas e o Campeonato da Europa já foi duas vezes adiado e provavelmente será uma terceira vez, visto que está previsto ser realizado em Abril deste ano na Turquia. Estar sem competição por vezes é frustrante e desanimador. Vejo muitos atletas a pararem os treinos e até a abandonarem a modalidade. Tenho a sorte porém de estar a ser acompanhada já há 2 anos por um treinador e uma psicóloga do desporto, que são no fundo as minhas âncoras. São eles que me animam quando me sinto desmotivada e que me ajudam a estabelecer e a definir objetivos. Aproveitamos também este tempo de pausa na competição para aprimorar a técnica de bilhar e criar métodos de reforço psicológico e ferramentas que poderei utilizar em competição para me transmitirem segurança. Além disso, estamos a escrever um livro sobre todo este processo de reestruturação do atleta do bilhar e métodos de treino.

Quantas horas treina? Tem mesa em casa?

Felizmente, tenho uma Academia de Bilhar que, embora encerrada ao público, me permite continuar a treinar. O local fica a 2 minutos a pé da minha casa o que facilita imenso os meus treinos. Normalmente, treino 3 horas por dia e tento manter-me ativa fisicamente, nem que seja apenas com uma caminhada pela manhã. Alguns dos treinos são feitos online com o meu treinador. Coloco uma câmera de filmar direcionada para a mesa e faço o treino orientado por ele, sendo que por vezes também está presente a psicóloga do desporto que vai acompanhando toda esta dinâmica.

Como nasce a ideia de abrir a academia?

A Bracara Academia de Bilhar tem 6 anos. O projeto nasceu de um sonho que foi crescendo em mim desde o primeiro contacto com a modalidade, no âmbito federativo. Desde pequena que sempre tive contacto com o bilhar, mas sempre com caráter recreativo e de lazer, com o meu pai ou com os meus amigos. Só mais tarde, já com os meus 25 anos, quando um amigo me levou à ABB – Academia de Bilhar de Braga, é que tive conhecimento de que na Federação Portuguesa de Bilhar havia competição feminina, tanto em equipa como individual. A partir do momento em que comecei a competir, surgiu em mim o sonho de ter um espaço meu, idealizado por mim, um espaço que fosse aberto a todos, para todas as idades, com componente de competição, de formação e de lazer. Um espaço que desse as melhores condições possíveis aos atletas e a todos os que quisessem praticar a modalidade.

E acabou por criar também um clube?

Entretanto, há 2 anos, surgiu a necessidade de criação de um clube, associado a este espaço. O número de praticantes foi aumentado de ano para ano e eu própria queria jogar por um Clube de Braga e, se possível, um clube criado por mim. E assim surgiu o CBAB – Clube Bracara Academia de Bilhar, em Agosto de 2019, que iniciou a sua atividade com mais de 30 atletas e 4 equipas na FPB. É um projeto arrojado e corajoso que tem muito para crescer. 

Que efeitos sofreu e sofre, por ter sido forçada a fechar a academia?

Infelizmente, estes tempos de pandemia não ajudaram ao desenvolvimento da Bracara e do CBAB, mas estou esperançosa de que tudo volte ao normal em breve e possamos realizar todas as atividades e iniciativas previstas. Os prejuízos não são apenas financeiros, mas desportivos também. O que me preocupa mais é a falta de socialização e prática desportiva nesta altura dos atletas do CBAB e não conseguir dar resposta às suas necessidades. Tenho receio de que alguns atletas ou iniciantes na modalidade possam vir a desanimar e até desistir. De qualquer forma, eu e mais atletas criámos uma competição online, o Online PT Tour. Esta é uma competição aberta a todos os jogadores a nível nacional e que foi criada apenas para manter a atividade no bilhar. Os jogadores apenas precisam de uma mesa de bilhar e um smartphone, para transmitirem os seus jogos em direto. Quanto à estrutura da competição, embora ela seja por pontuações atingidas por cada um dos participantes, ela desenvolve-se da mesma forma que a presencial, com quadro de 32 ou 64 jogadores em eliminação direta.

Que provas estão previstas para este ano e onde seria suposto competir?

Este ano está prevista a realização do Campeonato da Europa em abril na Turquia, que provavelmente será adiado para outubro/novembro. Quanto às provas de âmbito nacional, a Federação quer realizar as fases finais de todas as competições mas está a ser extremamente complicado porque não há espaço no calendário para a realização de todas as provas que entretanto foram canceladas. Penso que ainda não há nada definido quanto a datas.

O que falta em Portugal para o crescimento da modalidade? E em particular da realidade feminina?

Acho que o “calcanhar de Aquiles” desta modalidade em Portugal é a falta de formação. Não há no nosso país um local de formação de bilhar, que abra as portas aos mais novos, às crianças e aos jovens e que lhes permita o primeiro contacto com a modalidade ou o seu desenvolvimento e crescimento como atleta na prática desportiva do bilhar. Relativamente à realidade feminina neste desporto, tenho feito tudo o que está ao meu alcance para a promover. Aliás já realizei 6 provas europeias femininas em Portugal juntamente com a FPB e a EPBF (European Pocket Billiard Federation), além de muitas outras provas nacionais, regionais e locais, todas no âmbito do bilhar feminino.

Vê-se um dia como dirigente da modalidade? Presidente da federação? o que te move neste momento? 

Neste momento, vejo-me como alguém que tem as ferramentas necessárias para fazer mais pela modalidade, seja no âmbito da formação, da promoção do desporto e da valorização do bilhar no setor feminino e nas camadas jovens. Para mim, ser atleta é ser também promotora do desporto e de como ele deve ser visto e entendido, de uma estruturada e pensada. 

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