Wulin: o “bébé” que consegue quebrar estigmas e até já é campeão nacional

É na Maia que Margarida Santos conduz uma escola de Kung-Fu que se sagrou campeã nacional e integra (quase) tantas "elas" como "eles". A idade dos praticantes que competem, independentemente do género, varia entre os os 50 e... os quatro anos

Final de tarde de quinta-feira. Também podia ser a uma terça, são os dias em que, no Complexo Municipal de Ginástica da Maia, se realizam os treinos da Wulin, escola de Kung-Fu daquela cidade nortenha, fronteiriça ao Porto. Margarida Santos, mentora, professora e dinamizadora do projeto, recebe-nos à entrada com um sorriso, escondido pela máscara, mas transbordado pelos olhos. Entrámos.

Entrámos num mundo de uma associação que, poucos dias depois, sábado, dia 5 de dezembro, se sagrou a equipa campeã nacional de Wushu Moderno e vice-campeã de Wushu Tradicional no Campeonato Nacional online da Federação Portuguesa de Artes Marciais Chinesas, conquistando assim duas taças.

Matilde Leitão – Leque – infantis

Margarida Santos não esconde o orgulho no projeto, enquanto o apresenta. “A nossa Associação, neste momento, tem duas escolas: no Complexo Municipal de Ginástica da Maia e no Espaço 2. Temos alunas desde os quatro anos até aos 50 a competir em campeonatos regionais e nacionais. Apesar de tudo, a nossa Associação só foi fundada há cerca de um ano, somos uma Associação bastante ‘bébé’, apesar do projeto já existir anteriormente, e neste ano absolutamente anormal, devido à pandemia, conseguimos sagrar-nos vice-campeões regionais em duas vertentes (Kung-Fu Tradicional e Kung-Fu Moderno) por equipas, temos inúmeras campeãs regionais”, refere, ainda antes dos nacionais.

E quantas atletas tem a Wulin? A resposta surge com o mesmo entusiasmo, a mesma energia, o mesmo tom vibrante: quase tantas como meninos, rapazes, homens. “Ao todo? Nas duas escolas? De meninas? Nós somos uma escola muito particular, não sei se é por a treinadora ser rapariga… (risos), mas temos bastantes meninas. Diria que umas vinte, ao todo, o que é raro numa arte marcial e numa associação com tão pouco tempo de existência. Acho que conseguimos quebrar o estigma de que as artes marciais são só para homens e para uma determinada faixa etária”, aponta Margarida, antes de concretizar: “São vinte num universo de cerca de 50 alunos.”

“Nós somos uma escola muito particular, não sei se é por a treinadora ser uma rapariga… (risos), mas temos bastantes raparigas. Diria que umas vinte, num universo de cerca de 50 alunos, o que é raro numa arte marcial”

Carolina Torres, de 15 anos, faz Kung-Fu há cinco. “É um desporto diferente. Eu sou bocado esquisita com desportos, vim praticar, experimentei, gostei, fiquei”, explica, antes de concretizar: “Experimentei futebol. Não gostei, porque eram equipas mistas e eu era posta de parte. Aqui, não. Cada um tem a sua categoria, quando vamos competir e não somos postas de parte.”

Os planos, no que ao Kung-Fu – que é para continuar, como está bom de ver nas declarações – diz respeito, estão bem delineados: “Continuar a ir aos regionais, aos nacionais e, se possível, ir mais além.” “Ganhei as regionais, sim, em cinco categorias. Em quantas participei? Em cinco (risos). Ganhei todas. Agora, para o nacional, vou participar em uma, porque estive lesionada, tive uma inflamação no tendão, estou a recomeçar hoje”, elucida Carolina.

À margem do Kung-Fu, a aluna… estuda. “Estou no 10.º ano, em Ciências Sócio-Económicas, Economia. Se está a correr bem? Mais ou menos (risos). O primeiro período é sempre uma adaptação diferente, mas tem que se fazer. As aulas são todas presenciais, ao menos isso”, desabafa, antes de retomar o treino, interrompido para deixar o seu testemunho.

Carolina Proença – Shaolin – Cadetes

Ana tem 49 anos e é terapeuta. Faz Kung-Fu na Maia há mais de dois anos. E explica como lá foi parar. “Eu sempre gostei de artes marciais”, refere. “Já fiz karaté, também, há já muitos anos, já tinha feito Kung-Fu noutro sítio, quando andava no Porto, soube que aqui havia e aproveitei. Aqui é muito, é um grupo muito heterogéneo, mas somos todos uma família, há um espírito de grupo muito grande, que às vezes não existe noutros desportos mais conhecidos. Eu, às vezes, estou a fazer alguma coisa mal e eles vêm ajudar, eles é que me ajudam (risos)”, remata a decana do coletivo.

Carolina Torres – Hungar – Cadetes

Os primeiros indícios do Kung-Fu remontam a uma época algures entre os 1700 e 1200 a.C. É uma arte marcial milenar, apontada como a “mãe” de todas as outras. É oriunda da China, tal como o Karaté é do Japão, assim como o Jui-jitsu, ou o Teakwondo é da Coreia. O judo, por exemplo, de origem nipónica, foi fundado por Jigoro Kano em 1882, tendo 138 anos – é das mais recentes artes marciais

Matilde Santos – Daoshu – Cadetes
Matilde tem oito anos e faz Kung-Fu há dois (Foto: Filipe Amorim / Lado F)

Foi chegada a hora de falar com a petiza do grupo. Chama-se Matilde [Leitão], tem oito anos, anda no terceiro ano e confessa preferir matemática a português. Faz Kung-Fu desde os seis e conta como apareceu na sua vida. “O meu pai, quando a Margarida, às vezes, não está, vem para aqui dar aulas. Então, eu vinha para aqui vê-lo e pedi ao meu pai se podia fazer o Kung-Fu”, conta a menina que, como atestam as evidências, viu o seu pedido concedido.

“O meu pai trabalha num centro de explicações. E então, às vezes, a Margarida traz-me para eu não chegar atrasada. Porque a minha avó vai para a outra escola, o meu avô está em casa e está noutro sítio, a minha avó nunca sai de casa, então, quem é que me vem cá pôr?” – a pergunta é retórica, pois claro: a Margarida!

Matilde explica porque gosta do Kung-Fu – “Tenho aqui alguns amigos meus, aprendo mais formas e coisas que eu ainda não sei” – antes de relatar com orgulho a sua prestação nos regionais de fevereiro: “Fiquei sempre em primeiro lugar. Tive três medalhas.” “Agora, vou fazer duas: leque e Shaolin, que é uma forma sem armas, só com as mãos e os pés”, refere a pequena e doce Matilde.

Rafaela Pinto – Leque – Juniores

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